Psicoterapia - Para que e para quem isto serve afinal? 

Desde a época em que eu era uma jovem estudante de psicologia venho me deparando com esta questão, formulada das mais variadas maneiras, em situações nem sempre oportunas, com diversos tons emocionais, desde a mais pura curiosidade, até a mais ferrenha ironia e agressividade.

 

Quando fui Conselheira do CRP 06 (Conselho Regional de Psicologia 6a Região), órgão que 

orienta, fiscaliza e cuida da regulamentação e da ética da Psicologia enquanto profissão, participei de um projeto que visava "popularizar" a psicologia, o evento se chamava "Psiquê - Quatro Abordagens em Psicoterapia".

 

 Respeitados profissionais foram convidados a proferir palestras explicando à população "leiga" o que era psicoterapia. Este ciclo de palestras foi um grande sucesso de público, recebendo 

centenas de pessoas, e deu origem ao livro de mesmo nome.

 

O Centro Cultural Vergueiro abriu suas portas para o CRP realizar este projeto, na época bastante arrojado ( estou me referindo a 1990/1991), possibilitando que este fosse gratuito e livre para quem se interessasse. 

 

Desde então, todos os dias me deparo com matérias a respeito da necessidade ou não de se 

buscar ajuda psicológica, nas mais variadas revistas, jornais e mídias eletrônicas. Nunca foi tão 

fácil encontrar informação de qualidade, mas mesmo assim, a pergunta parece não querer calar, 

afinal, para que e para quem serve a psicoterapia? 

 

Minha resposta é: para quem quiser! 

 

Não importa o grau de sofrimento ou angústia, se está indeciso ou deprimido, ansioso ou apático. Se sua vida não lhe satisfaz por algum motivo, se você quer ser mais criativo, se acha que a vida dos outros é mais interessante que a sua, ou não... Não importa o motivo, a psicoterapia vai te ajudar a ampliar sua visão de mundo e de você mesmo. 

 

Imagine que sua casa tem algumas janelas, você olha o mundo através delas, mas sua casa 

também tem paredes, que te protegem do mundo lá fora, da variação do tempo e temperatura, 

mas também te isola de possíveis paisagens.

 

 Imagine que sua visão de mundo é assim: você vê o mundo por estas janelas que está habituado, tudo parece ter sempre a mesma perspectiva, agora imagine se você mudasse algumas janelas e paredes de lugar, que tal?

 

 Assim é o processo psicoterápico, uma ampliação da visão de mundo e de nós mesmos, um 

reconhecimento do que pode ou não pode ser mudado, afinal, não se pode abrir janelas em  todas as paredes de uma casa, temos que respeitar sua estrutura, mas podemos circular por fora da casa, caminhar pelos jardins e calçadas, buscar não apenas a visão de cada detalhe, mas 

também a visão do todo.

 

Nossa mente é semelhante à uma casa, precisamos cuidar de cada detalhe interno, mas também precisamos cuidar da estrutura de sustentação, das colunas, e ao mesmo tempo ter uma visão do todo, quais os pontos fortes, fracos, onde precisamos de manutenção e reforma, a estrutura aguenta? 

 

De qualquer maneira, sempre é possível nos sentirmos mais confortáveis em nós mesmos, com 

os outros, fazermos escolhas mais conscientes, avaliando o maior número de opções e detalhes 

das circunstâncias, ou mesmo encarar que algumas decisões foram emergenciais ou circunstanciais, e que devemos seguir adiante e tentar tirar proveito das situações que a vida nos ofereceu, tentar entender e separar o que era possível, evitar o que era evitável.

 

Nem sempre podemos escolher nosso destino, mas podemos escolher como vamos lidar com ele, se não podemos, se somos vítimas do destino ou de outras pessoas, talvez a reforma precise ser urgente. 

 

Freud dizia que se minha ação não está de acordo com minha vontade, isto é sinal de neurose.

Jung dizia que até o inconsciente se tornar consciente ele irá dirigir a sua vida, e você vai chamá-

lo de destino. 

 

Agora sou eu  que pergunto: quem dirige sua vida e faz suas escolhas?  Você se deixa guiar por 

mágoas, frustrações, ansiedades, desvalorização ou hipervalorização de si próprio, das situações 

ou dos outros? 

 

Ou você considera seu ser inteiro, capaz de harmonizar a visão de mundo com a visão de si 

mesmo,  na hora de decidir seu próprio caminho? 

 

Tenho apenas uma advertência a fazer: após iniciado o processo psicoterápico, não tem mais 

volta, uma vez que se aprende a olhar a vida ampliando as perspectivas, nunca mais ficaremos 

satisfeitos com a visão de mundo proporcionada por uma simples janelinha!

 

Solange Bertolotto Schneider

 

(Todos os direitos reservados)

A Flor e a Janela - Paulo Saldanha

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