Falar é uma necessidade, escutar é uma arte: A fala e a escuta analitica

Qual é o proposito da psicoterapia? Eu preciso de psicoterapia? Deixe-me tentar responder

Uma das perguntas mais frequentes que recebo a respeito de psicoterapia é: Para que serve a psicoterapia?  Outra pergunta, também muito frequente é:  Você acha que eu preciso de psicoterapia? Ao responder a primeira pergunta, espero ajudar a encontrar também a  resposta para a segunda questão, pois estas estão intimamente ligadas

A psicoterapia já sofreu muitos preconceitos, foi considerada coisa “de louco”, de gente incapaz de resolver os próprios problemas, sempre com uma conotação pejorativa e preconceituosa, que felizmente tem sido superada pela informação. A própria palavra sempre foi carregada de conotações pejorativas e preconceituosas, que felizmente tem sido superada através da educação e da informação a este respeito. Acredito que as presunções negativas que cercaram a psicoterapia devem-se `as suas raízes e sua conexão com seu desenvolvimento ter se dado através dos tratamentos para a esquizofrenia, e ainda hoje podendo estar associada com a estigmatizarão das doenças mentais.  

 

 Apesar disso, parece que as informações recebidas muitas vezes são dadas de maneira parcial ou tendenciosa, na tentativa de induzir as pessoas a procurarem ou não uma psicoterapia, decisão que na verdade cabe apenas ao próprio sujeito, e ver um psicoterapeuta não e’ mais obrigatório como já foi no passado.  Houve uma época em que esquizofrênicos, ou pessoas suspeitas de serem esquizofrênicas poderiam ser internadas em hospitais, muitas vezes por vários anos, ou ate por toda a sua vida ( o que ainda ocorre em muitos países, como no próprio Brasil, onde a internação psiquiátrica chegou a ser utilizada como punição por mau comportamento social ou diferenças ideológicas).

 

Em algumas situações parece haver um consenso de que indivíduos que tenham recebido algum diagnóstico psiquiátrico como compulsões, depressão, bipolaridade ou distúrbios psicossomáticos deveriam fazer um tratamento psicoterápico, pois vários estudos mostram que isto de fato pode trazer grandes benefícios. No entanto, há vários sofrimentos psíquicos que não se enquadram no diagnóstico médico ou psiquiátrico, mas que podem se beneficiar, e muito, do processo psicoterapêutico, e a essas pessoas eu gostaria de dedicar este artigo

 

Psicoterapia é uma forma de intervenção que visa a vida do indivíduo de forma ampla, abrangendo os aspectos cognitivos e emocionais, individuais, familiares, sociais e culturais, de modo que se busque uma melhoria da qualidade de vida deste mesmo indivíduo. Já foi chamada de “cura pela fala”, nos primórdios das psicanalises, tanto Freudiana[1] quanto Junguiana[2]. Aos poucos outras teorias e técnicas foram se incorporando ao processo psicoterapêutico, como os exercícios da bioenergética de Wilhelm Reich[3], o Psicodrama de Moreno[4], as terapias que usam a arte, a musica e o Sandplay[5], técnica desenvolvida por Dora Kalf na Suíça, que tem como base a teoria Junguiana.

 

Uma das maiores contribuições da Psicologia, sem duvida, é o conceito de inconsciente,[6] acrescido do conceito de inconsciente coletivo e dos arquétipos, base da teoria Junguiana, juntamente com a teoria dos Complexos[7].

 

Graças ao conceito de inconsciente, podemos compreender que todos nós somos conscientes de nossas atitudes, afetos e intenções apenas até certo ponto, já que boa parte de nossas experiencias não são acessíveis à nossa consciência de forma ampla, ficando subconscientes ou inconscientes, e desta forma, liderando nossas escolhas e ações, que tantas vezes nos surpreendem a nós mesmos.

 

O ideal seria que todos nós soubéssemos a razão de nossos atos e emoções, mas acontece que não é bem assim.

 

Quantas vezes chegamos em casa, e ao avaliar nosso dia, percebemos que não sabemos por que estamos irritados, ou porque tratamos ou fomos tratados de maneira inadequada por alguém. Outras vezes temos uma dor de cabeça após uma conversa que parecia banal, mas que na verdade escondeu agressões disfarçadas num comportamento passivo-agressivo, do qual não temos plena consciência. Em algumas situações ainda nossa ação não condiz com nossa intenção, nos arrependemos do que fizemos ou dissemos, mas é como se tivéssemos sido possuídos por uma entidade exterior que guiasse nossa ação à nossa revelia. Na verdade, nestas situações estamos possuídos pelos complexos carregados de afeto, que nos dominam e interferem em nossa vontade consciente.

 

A psicoterapia se utiliza de teorias psicológicas que nos ajudam a nos conscientizar dos motivos inconscientes que guiaram nossa ação, tornando-nos mais conscientes de nossos motivos e intenções, ampliamos nossa capacidade de escolha, além de avaliarmos melhor as consequências de nossos atos.

 

Ao amplificarmos nossa consciência nos tornamos senhores de nosso próprio destino, já que passamos a ter um controle mais saudável de nossas atitudes, antes conduzidas por um “piloto automático engessado” que não tem conhecimento ou capacidade de utilizar todos os instrumentos disponíveis.

 

A psicoterapia nos instrumentaliza a estar mais conscientes e, consequentemente, no comando de nossas próprias ações, de nossa própria vida.

 

Sempre que nossas atitudes nos surpreendem de maneira negativa, um complexo carregado de emoções inconscientes foi ativado. Segundo Jung, situações traumáticas, bem como frustrações, falta de afeto, perdas significativas, desrespeitos, humilhações e coisas do gênero, podem criar complexos carregados de afeto, estes complexos tornam-se autônomos, ‘possuindo’ o sujeito como se fosse uma outra personalidade, onde os outros não nos reconhecem, e as vezes nem nós mesmos nos reconhecemos.

Muitas vezes estes complexos se manifestam em sintomas como os descritos anteriormente, em outras podem se manifestar em indecisão, em dificuldade para assumir compromissos ou desenvolver relações afetivas satisfatórias, ou ainda em compulsões de todos os tipos, como por alimentos, sexo, jogos, compras ou até mesmo pelas redes sociais.

 

Outras vezes se manifesta numa tristeza aparentemente sem motivo, insatisfação com o trabalho, dificuldades de relacionamento ou isolamento social. Não podemos nos esquecer ainda de uma das manifestações menos reconhecidas - o sentimento de que a vida não tem sentido, o que ocorre muito mais do que se imagina, inclusive em crianças e adolescentes.

 

Segundo Jung, a falta de sentido na vida e’ um mal de extrema gravidade, pois uma vida sem sentido não valeria a pena ser vivida.

 

Hoje temos tantos jovens bem-sucedidos que não se sentem merecedores do sucesso, como se tivessem corrido atrás de uma capacidade de desempenho, que mesmo quando alcançada, faz com que se sintam impostores da própria vida. Triste, não e mesmo?

Uma vida extremamente bem adaptada, onde as necessidades, anseios e talentos individuais não são valorizados, também pode ser considerada neurótica, ou seja, uma persona extremamente adaptada não daria condições para que todos os aspectos da personalidade do individuo fossem integrados, o que Jung chamou de processo de individuação.

 

A psicoterapia pode ser útil em todos estes casos, inclusive quando não há um sofrimento específico, mas sim um desejo de ir além, quando algo nos falta e nem sabemos direito o que, uma insatisfação, uma inquietude, uma certa melancolia, um não sei bem o que...

 

 A psicoterapia também pode ser útil quando temos uma dificuldade específica, como falar em público, escolher uma profissão, tomar uma decisão sobre mudar ou não de país, de carreira, deixar um casamento, ter ou não ter filhos.

 

 Todas as decisões que não nos sentimos preparados a tomar, podem ser discutidas na psicoterapia, assim como as decisões das quais nos arrependemos e que gostaríamos de reverter.

 

A psicoterapia é um diálogo onde há uma escuta qualificada, por isso é diferente de uma conversa com um amigo ou familiar. O psicoterapeuta exerce a arte de ouvir para a qual foi treinado. O psicoterapeuta ouve o não dito, observa as entrelinhas da fala, da ação ou de sua ausência. Esta escuta qualificada depende de muito treino, proporcionando ao cliente a oportunidade de ouvir a si próprio com o menor ruído possível, de maneira que os complexos ativados, carregados de emoções que antes coordenavam a vida do cliente possam perder a capacidade de influenciar as escolhas e decisões, que passam a ser pautadas nas necessidades e desejos mais íntimos, de acordo com aquilo que o sujeito realmente é , sofrendo a menor influência possível dos processos inconscientes anteriores.   

 

Além disso, a psicoterapia pode ajudar o indivíduo a buscar uma realização pessoal, que pode não ter vindo junto com o sucesso na carreira ou na vida pessoal.

 

A vida interior, considerada por alguns como misteriosa, na verdade pode ser muito satisfatória!

 

Notas de rodape':

[1] Sigmund Freud, criador da Psicanálise

[2] Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica, também conhecida como Psicologia Profunda

[3] Wilhelm Reich, psicanalista que incluiu o trabalho corporal na psicoterapia

[4] Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama

[5] Sandplay é uma técnica desenvolvida por Dora Kalf, que se utiliza de uma caixa com areia em medidas padronizadas bem como de miniaturas que representam aspectos da vida pessoal, consciente e inconsciente.

[6] O conceito de inconsciente desenvolvido por Sigmund Freud é explorado em toda suas obras completas, traduzido para varios idiomas

[7] Os conceitos foram desenvolvidos por Carl Gustav Jung, e estão disseminados em suas obras completas, também traduzido para varios idiomas

Texto originalmente publicado em ingles, para o site therapyroute.com

 

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