A ESTÓRIA DO MACACO - Um conto familiar 

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A Estória do Macaco

 

 

 

Era uma vez um homem que dirigia por uma rua desconhecida, quando, de repente, o pneu de seu carro fura. O homem desce do carro disposto a trocar o pneu, mas se dá conta de que o macaco não está lá.

Ele fica desconfortável com a situação, afinal, já não bastava ter um pneu furado à noite, quando já estava cansado de um dia intenso de trabalho, numa rua desconhecida e à noite, e, ainda por cima, não encontrar o macaco!

A rua era deserta, nenhum carro passava, o homem começou a ficar aflito, sem perspectiva de resolver a situação, quando enxerga ao longe uma luz acesa, e decide ir buscar ajuda, quem sabe ali ele encontraria alguém disposto a lhe emprestar um macaco?

Ele vai andando em direção aquela casa, com esperança de encontrar a ajuda de que necessita.

Ele caminha e começa a refletir: Será ótimo, eles devem ter um carro, me emprestam o macaco, eu troco meu pneu, devolvo o macaco, agradeço e vou embora. Mas conforme ele vai caminhando, os pensamentos vão evoluindo, e se eles não tiverem carro, será que vão me deixar usar o telefone? E se eles tiverem carro e mesmo assim não quiserem me emprestar o macaco? E se eles acharem que sou um bandido e nem abrirem a porta para que eu diga o que quero? E se me tratarem mal, dizendo que isto não são horas de bater na casa alheia? E se eles tiverem um cachorro, ou quem sabe uma arma, e me colocarem para correr?

Conforme ele caminhava em direção à casa, seus pensamentos evoluíam descontroladamente, antecipando todas as dificuldades, desconfianças e falta de boa vontade dos moradores da tal casa. De repente, aquilo que era uma esperança de ajuda, ao se encontrar em frente à casa, está tomado de dúvidas e incertezas.

Finalmente, cria coragem e toca a campainha da casa, quando uma pessoa abre ele diz: Você pega o seu macaco e faça com proveito dele, eu não preciso da sua ajuda, você é uma pessoa mesquinha, insensível, egoísta, incapaz de um gesto de solidariedade, e mais outras coisas que a boa educação não me permite repetir aqui e agora.

Após despejar todo este palavrório nos estupefatos donos da casa, ele vira as costas e vai embora, bufando, e sem macaco.

Os donos da casa se entreolham, estupefatos, sem entender o que havia acontecido, observam aquele desconhecido se afastar a passos largos, tentando imaginar porque foram tratados daquela maneira por aquele estranho.

Eu não tenho ideia sobre a origem desta estória, só sei que se tornou um código de alerta que minha família usava toda vez que alguém agia levado por pensamentos e fantasias autônomas, e não de acordo com os fatos, e funcionava como um antídoto mágico, que retirava a pessoa do poder da maldição dos pensamentos e fantasias autônomas, fazendo com que o indivíduo voltasse a refletir sobre a realidade da situação.

Me lembro particularmente de uma tia, que ao contar uma história sobre conflitos e mal-entendidos, dizia: - Também, é claro que isso iria dar errado, fulano estava com a estória do macaco!

A sabedoria popular desenvolve recursos muito criativos para lidar com comportamentos neuróticos, em apenas um alerta: - Fulano, você está com a estória do macaco! Fulano saia do transe ansioso, às vezes até levemente paranoides, e os complexos autônomos carregados de emoção tinham uma chance de serem desativados!

Após muitos anos de profissão pude reconhecer a sabedoria que pessoas que nem sabiam direito o que era psicologia na época, eram tão eficientes em colocar seu conhecimento em prática.

Tantas vezes ouvimos versões da estória do macaco, tanto nas narrativas de pacientes, como de pessoas à nossa volta, e caso não tenhamos o quadro completo da situação, nos sentimos como os moradores da casa que foram insultados sem razão.

As relações pessoais estão cheias de ruido de comunicação, que criam e alimentam conflitos desnecessários.

No caso da nossa estória, os moradores da casa, ao menos até onde sabemos, não foram tomados por nenhum complexo. Não revidaram, não foram atrás do homem pedir explicações ou coisa que o valha, mas ficaram sem entender o que havia acontecido, e provavelmente nunca entenderão, pois os complexos atuam de maneira autônoma, são inconscientes inclusive para o homem do macaco, quanto mais para quem teve que ouvir suas frases absurdas.

Muitas vezes nos vemos nesta situação, somos atingidos por uma bala perdida psíquica, e ficamos sem saber ao certo o que nos atingiu, mas geralmente sabemos quem, e esta pessoa passa a ficar sob observação, às vezes sob suspeita, ou até ser cancelada, como se faz ultimamente.

O perigo maior se dá quando um complexo ativado de alguém encontra ou ativa o complexo de outra pessoa, aí deixamos de ter pessoas que se comunicam e relacionam, mas foças inconscientes autônomas, cheias de emoção e energia, que assumem o controle da situação.

Jung diz que quando um complexo carregado de emoções é ativado, nós não temos um complexo, o complexo é que nos tem, quer dizer, nosso, ego, representante de nossa vontade, educação e valores, perde o controle, num evento próximo ao da dissociação psíquica, onde somos tomados por algo que não reconhecemos como nós mesmos.

No entanto, o problema tem solução.

Não precisamos ficar à mercê de nossos complexos autônomos, ou seja, podemos desligar os pensamentos autônomos, procurando focar no aqui e agora. Claro que isso depende de nossa história de vida e das situações difíceis, ou traumáticas, pelas quais passamos, mas vários conflitos e situações desagradáveis necessárias podem ser evitadas.

Várias vezes me dizem que gostariam de pedir tal coisa pra fulano ou fulana, ou convidar fulano ou fulana para tal ocasião, ou se inscrever para um curso ou emprego de quem tem medo de ser recusados. Minha resposta mais rápida é dizer, tente, o máximo que pode acontecer é te dizerem não ou que você não consiga a vaga. É claro que a pessoa precisa estar preparada para aceitar um não, mas se os pensamentos persecutórios estiverem presentes, a maneira que a pessoa se coloca pode ser ineficiente, afinal, se queremos ser ouvidos, precisamos de uma postura adequada, de argumentos coerentes.

 

Ouvir um não de quem quer que seja é sempre uma possibilidade a ser considerada, pois o outro tem o direito de decidir, tanto pelo sim, como pelo não, mas a fantasia de rejeição não considera a liberdade de decisão do outro.

Jamais saberemos se os donos daquela casa tinha sequer um carro, quanto mais um macaco, se este macaco seria adequado para o carro do nosso pobre homem, se eles teriam emprestado o macaco, ou ainda se eles não dariam uma carona para que ele chegasse mais rápido ao seu carro que estava longe, se ofereceriam dar um telefonema para que sua família não se preocupasse, pois havia ocorrido apenas o corriqueiro imprevisto de um pneu furado. 

Quando não damos ao outro a oportunidade de se manifestar, jamais saberemos de sua disponibilidade, motivos e razões, optamos por nos relacionar com nós mesmos, e este outro dentro de nós pode ser bem mais difícil de lidar do que o mero morador ao qual batemos à porta.

E você? Pediria o macaco emprestado? Pediria ajuda numa situação qualquer? Daria uma chance para o outro, e para você mesmo?

 

 

Referências Bibliográficas

 

Jung, Carl Gustav – Obras Completas

                                 O eu e o inconsciente, Obras Completas, Volume 7/2

                                 A Natureza da Psique, Obras Completas, Volume 8/2

                                 O Desenvolvimento da Personalidade, Volume 17

 

A estória do macaco era um conto, desconforto, piada, alerta, julgamento, enfim, uma forma que minha família encontrou para tentar elaborar a influência dos complexos autônomos carregados de afeto, numa época que a Psicologia não era tão popular quanto hoje, nem tínhamos o Google para perguntar, e ainda assim, de grande efeito terapêutico.

Um reconhecimento à sabedoria da minha avó Zahya e da minha tia Marlene, grandes contadoras de estória, e portadoras de grande sabedoria.

Por Solange Bertolotto Schneider