Sobre a verdade e a humildade

Verdade e  humildade caminham juntas, são interdependentes, complementarias, simples e 

complicadas.

 

Tantas discussões existem sobre a verdade, tantos filósofos já a descreveram, Psicólogos inclusive já defenderam que seu oposto, a mentira, seria um mal necessário à convivência social. As pequenas concessões do dia-a-dia podem facilmente se transformar em grandes mentiras, ou poderemos chamá-las de inverdades, onde pequenos deslizes, más-vontades, preguiça, e tantas outras pequenas falhas de caráter encontram caminho aberto para se expressar.

 

Não me refiro nem defendo a verdade como forma de agressão e rispidez social, pois considero  que a verdade possa ser dita, sim, de maneira suave, respeitosa, considerando a fraqueza e  debilidade alheia, quando houver. 

 

Eu me refiro à verdade incontestável dos fatos, das ações, onde as ideias e emoções se expressam, desnudando o caráter e a integridade, ou não, de nosso interlocutor. 

 

Qual seria a verdade de fato? Aquela que expressamos em público, onde poderemos ser julgados  por nossos interlocutores, ou aquela que reservamos aos nossos momentos mais íntimos, aos  nossos interlocutores privados, certos de que só seremos julgados por nossos iguais, por aqueles  com quem dividimos as mesmas ideias, anseios e emoções? 

 

Creio que são exatamente nestes momentos mais íntimos é que expomos nosso verdadeiro  caráter, quando não tem ninguém olhando nem ouvindo, quando nos sentimos seguros e aceitos,  quando podemos dizer qualquer coisa com total liberdade, aí sim, a verdade estará se expondo em sua magnânima plenitude. 

 

Ora, e a humildade, com se relaciona com tudo isso? A verdade confrontada é o espelho da alma, a cobrança social e pessoal a que estamos sujeitos.  Minha avó dizia que quem fala tudo o que quer, ouve o que não quer.  Vivemos um momento histórico social onde o que somos, falamos e fazemos está exposto na mídia, ou porque assim o quisemos, ou porque fomos flagrados. Seja em que circunstância for. Ou seja, toda a soberba e desmedida estará igualmente exposta, aí entra o difícil papel da humildade.

 

É preciso humildade para enfrentar a crítica à que fomos expostos, analisar o que é pertinente, separar as projeções quando isto for cabido, mas principalmente compreender que uma vez desvelado o mistério, não há retorno. Segredos não retornam jamais, a verdade revelada assume vida própria, adentra a consciência alheia e dai não podemos mais controlar o que o outro vai fazer com esta verdade, não é mais possível dizer que não foi este o dito, quando a palavra já está solta, viva, tomando seu próprio rumo. Não podemos jamais nos apropriar da interpretação alheia, subestimando a capacidade do outro em analisar os fatos e intenções. 

 

Verdade e humildade tornam-se antagônicas, pois não é possível impor a verdade, a verdade impõe-se por si só. Só nos resta humildade em reconhecer a capacidade do outro em desvelar e assimilar a verdade, recolhermo-nos à humilhação a que nos expusemos, e refletir sobre a função estrutural e transformadora da vergonha.

 

Solange Bertolotto Schneider

 

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Maat - Deusa Egípcia da verdade

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