Quando o livro é o alimento da alma

Uma reflexão sobre os livros de Jung e Paulo Coelho

Certa vez, Jung recebeu uma mulher muito humilde que queria conhecê-lo . Ela disse que seus livros eram como pão para ela. Ele ficou surpreso ao conhecer esta mulher tão simples, e com tão pouca instrução, que havia não apenas lido, como entendido seus livros.

A obra de Jung não é simples de se ler ou de se entender, mesmo assim sua psicologia se espalhou pelo mundo afora, e sua contribuição à nossa cultura é inestimável.

Jung fala da individuação como objetivo maior de nossa existência, e para isto precisamos conhecer nossa Sombra, relativizar nossa Persona e desenvolver nossos relacionamentos através da elaboração da anima e do animus. A sincronicidade faz parte de nossa vida, e  somos mais do que  seres com um inconsciente pessoal, partilhamos o inconsciente coletivo, que torna a humanidade uma só, sem separações de cor, raça ou credo.

Jung estudou alquimia e comparou o processo alquímico ao processo de individuação. Estudou o I Ching, as religiões antigas e culturas ancestrais. Foi chamado de gênio, louco, visionário, místico e muitas outras coisas, mas seu espírito investigador e científico deixaram uma marca registrada.

 

Mas por que alguns livros são como pão? Por que alguns autores batem recordes de venda, leitura e criam tanta polêmica, a ponto de alguns leitores terem até vergonha de dizer que apreciam e leem  seus livros?

Paulo Coelho é um deles. Os números são avassaladores. As críticas se dividem em comentários os mais elogiosos, ate os mais agressivos e desrespeitosos. Porem, o fato inegavel é que seus livros são como pão, alimentam a alma de quem os lê. Seus livros falam do processo de individuação, tal e qual Jung descreveu, como um processo possivel a qualquer pessoa , ja que qualquer um pode  se individuar e ser especial em sua individuação. Segundo Jung, cada um deve seguir seu próprio caminho, não precisa ser perfeito, mas aceitar a própria imperfeição. Paulo Coelho, em seus livros, descreve entre seus personagens, pessoas comuns, com defeitos , seus sonhos e suas mazelas. Algumas personagensaté aparentemente fúteis, mas cada uma encontrando seu caminho de individuação, em meio a todas as adversidades. Sim, porque a individuacao ocorre apesar das adversidades.

 

Paulo Coelho leu Jung, e tem traduzido de forma clara e acessível grande parte de seus ensinamentos em seus romances. A jornada do herói está sempre presente, o herói sempre improvável, comum, rejeitado, marginalizado, aparentemente frágil e desastrado. O tipo de heroi nao importa, o que importa é não estar tomado pela hybris, e sim em contato com o próprio Self, podendo assim,  encontrar o caminho da redenção.

 

Jung descreve que todos temos algo de especial, nossa individualidade, a capacidade de sermos únicos. Jung valoriza o reconhecimento da sombra e também  a conscientização e relativização  da persona. Paulo Coelho faz o mesmo com seus personagens, a jornada se inicia quando estão aptos a reconhecer as próprias fraquezas, assim como os talentos escondidos por uma adaptação social sufocante. Tanto o processo analitico, quanto o heroísmo nosso de cada dia, simples, mas sobretudo ousado, tem em comum o confronto com nossa verdade interior, a escuta atenta da voz do Self.

 Exige-se muita coragem para isso, e ambos, Jung e Coelho valorizam a coragem do cidadão comum de encontrar um significado e importância para suas vidas, por mais insignificantes que estas possam parecer aos olhos do mundo.

Jung nos presenteia com o olhar do reconhecimento de nossa importância no mundo. O fato de existirmos, de sermos únicos, com a capacidade de nos individuarmos, implica na aceitação do outro como ele é, uma compreensão da condição humana que ultrapassa as barreiras de religião, crença, raça e cultura. O inconsciente coletivo iguala a raça humana e cada indivíduo como sendo parte de um todo maior, isto por si só já atribui um significado à existência humana que difere da luta e do conflito.

O significado de irmandade está inerente ao conceito de inconsciente coletivo.

 

(Este texto é um excerto de um trabalho a ser divulgado)

 

Solange Bertolotto Schneider

 

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Frase: C.G. Jung Speaking: Interviews and Encounters (pages 219-224)

Creditos de edição: Lewis Lafontaine, C.G. Jung Depth Psychology (facebook page)

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