Jojo Rabitt – Imaginação, Crença e Ideologia – aspectos criativos e patológicos

Atualizado: Mai 14


A imaginação como forma de controle e de elaboração da realidade


Jojo Rabitt é um daqueles filmes que surpreendem pela criatividade, afinal, alguém já tinha imaginado que Hitler poderia ser o amigo imaginário de alguma criança, em qualquer época de nossa história?

Esta imagem poética utilizada no filme nos dá margem a muitas elaborações, afinal, em tempos conturbados como o que estamos vivendo, onde regimes de extrema direita, fanatismos religiosos, exacerbação de preconceitos, tentativa de boicotar os direitos humanos adquiridos a tanto custo, e a crescente onda de intolerância que invade várias nações do mundo, compreender a essência deste Hitler criado na mente de uma criança ingênua pode nos ajudar a compreender os processos de construção de uma ideologia e da manipulação sócio-política.

Hitler, na imaginação de Jojo, é um sujeito engraçado, desastrado, capaz de falar os maiores absurdos sem nenhum senso crítico, como geralmente fazem as crianças. O Hitler imaginário prega conceitos de discriminação aos judeus e à superioridade da raça ariana de uma maneira pueril, inconsequente e narcisista, apelando para a aceitação incondicional de suas idéias. Jojo não tem nenhuma critica aos absurdos propostos pela sociedade nazista, nem ao seu amigo imaginário. Sua idealização da figura do fuhrer e´ adaptada à sua própria capacidade infantil de compreender a ideologia nazista.

Ideologia, em um sentido amplo, significa aquilo que seria ou é ideal. Este termo possui diferentes significados, sendo que no senso comum é tido como algo ideal, que contém um conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas ou visões de mundo de um indivíduo ou de determinado grupo, orientado para suas ações sociais e políticas.

Ao analisarmos o termo “ideologia”, não parece haver algum problema, no entanto, como se forma uma ideologia? Como se formam as ideias, pensamentos, doutrinas e visões de mundo que sustentam a base de uma ideologia? Com certeza, a fantasia e a imaginação parecem exercer um papel bastante relevante na construção de qualquer ideologia da qual temos conhecimento.

Ideologias baseiam-se em crenças de todo tipo, desde as humanitárias até as mais segregacionistas. Uma ideologia depende de um conjunto de crenças e convicções que podem ou não estar pautadas na realidade dos fatos, ou na deturpação que se faz sobre a realidade dos fatos.

Nossa visão da realidade sofre interferências de nossos fatores emocionais o tempo todo. Nossa capacidade de julgamento é constantemente afetada pelo conjunto de informações de que dispomos, mas também na confiabilidade daqueles que nos fornecem estas informações. Neste sentido, personalidades com maior capacidade de liderança, de persuasão, podem seduzir desde uma única pessoa até a grandes grupos através da eloquência e do entusiasmo com que compartilha suas ideias. A emoção é um fator preponderante na criação de uma ideologia e da união de seus seguidores. Fazer parte de um grupo social relevante sempre foi uma estratégia de sobrevivência eficaz, caracterizando-se por ser um comportamento instintivo primordial, também observado em vários animais, de várias espécies.

Mas o que acontece quando somos colocados em uma situação em que nossas crenças e convicções ideológicas são confrontadas bruscamente? Foi o que aconteceu com Jojo ao descobrir que Elsa, uma jovem judia, morava escondida em sua casa, encobertada por sua mãe.

Imaginação e realidade se chocam. Quando se conhece o inimigo de maneira tão intima, como a que aconteceu entre Elsa e Jojo, e se estabelece uma relação de afeto e amizade, os paradigmas passam a ser questionados. Claro que isto acontece neste filme em que estes personagens são jovens e não estão apegados ao preconceito de uma maneira arraigada. As convicções de Jojo mais se parecem com a fala de um papagaio que repete tudo o que houve, sem ter consciência do que diz. Elsa tem consciência que existem alemães cruéis e solidários, pois experienciou isto em sua própria estória de vida.

Talvez a maior crítica que este filme faz do nazismo e dos governos radicais seja exatamente esta: Por que acreditamos no que acreditamos? Por que repetimos o que ouvimos sem nos questionarmos se uma ideia está correta?

Um dos artifícios utilizados pelos grandes ditadores e líderes inescrupulosos é repetir uma mentira tantas vezes que esta passa a ser considerada uma verdade. Há, inclusive, estudos em neuropsicologia que comprovam que nosso cérebro se estressa tanto com a mentira, que precisa de mecanismos de proteção, isto é, o cérebro passa a acreditar que algo é verdadeiro, após a mesma mentira ser repetida inúmeras vezes, ou seja, uma mentira passa a ser “sentida” ou acreditada como se fosse verdadeira, já que o desconforto emocional desaparece.

Táticas de manipulação de massas implicam constantemente em fornecer informações errôneas, de forma contínua e maciça, até que uma fake News seja aceita como verdade incontestável.


O sacrifício do coelho e sua simbologia




O animal escolhido para ser sacrificado na demonstração de coragem no acampamento da juventude nazista é um coelho. Parece mais um teste de psicopatia ou de perversão do que de coragem, que considero uma critica bastante contundente ao nazismo e sua ideologia.

Ser capaz de matar um animal frágil, delicado e indefeso não seria exatamente uma prova de coragem, mas sim de crueldade. Ser cruel parece ser uma das exigências dos regimes totalitários, incompatível com a compaixão exercida por Jojo.

Ao pensarmos no coelho como um animal que simboliza a fertilidade, a abundância, a prosperidade, a inocência, a juventude, a astúcia e a inteligência, sacrificar o coelho seria exigir o sacrifício das características que este representa, afinal, numa guerra, não há espaço para fertilidade nem das plantações nem dos animais, a própria fertilidade humana fica comprometida pela fome e palas duras condições físicas e psicológicas. A abundância e a prosperidade precisam ser sacrificadas simbolicamente, tanto quanto a inocência é sacrificada de fato. A astucia e inteligência deixam de ser utilizadas em prol da sobrevivência e do bem estar, pois numa guerra estão a serviço da destruição e das relações de poder.

Ao falhar em sacrificar o animal, Jojo é rebatizado como Jojo Rabitt, ou Jojo Coelho, já que as características deste animal estão em perfeita sintonia com sua personalidade.

Logo no inicio percebemos que o amigo imaginário de Jojo, Adolf, tem tanto características do próprio Hitler, como do próprio Jojo, já que Adolf consola Jojo, dizendo que

Adolf: [to Jojo] Let me give you some really good advice. Be the rabbit. The humble bunny can outwit all of his enemies. He’s brave, and sneaky, and strong. Be the rabbit.

Adolf: [para Jojo] Deixe-me dar-lhe um conselho muito bom. Seja o coelho. O humilde coelho pode enganar todos os seus inimigos. Ele é corajoso, sorrateiro e forte. Seja o coelho.

Aqui Jojo demonstra ter condições internas de lutar contra os ideais nazistas que lhe foram inculcados de forma contundente. Ele, como outros personagens, encontra um espaço simbólico onde sua contestação aos valores do nazismo não o colocariam em risco de vida.

Você não é nazista, Jojo, você é apenas um garoto de 10 anos, vestindo um uniforme engraçado e querendo fazer parte de um clube. Você não é um deles.” Elsa

O confronto entre fantasia e realidade se inicia



Jojo, ao se deparar com Elsa escondida em sua casa, começa com ela um relacionamento em que suas convicções sobre a natureza dos judeus passam a ser confrontadas. Elsa conhece as fantasias e preconceitos arraigadas na ideologia nazista, e passa a exagerar os detalhes desta fantasia, de uma maneira lúdica. Ambos estão solitários, e passam a ocupar o tedio e a solidão juntos.

Jojo começa a escrever um livro sobre os judeus, cheio de ilustrações e fantasias, e Elsa aceita o jogo de ser uma informante fiel sobre a natureza dos judeus, porem assume estas características de forma provocativa. Um afeto cresce entre eles, afinal, são apenas dois jovens solitários, tentando elaborar a confusão que a guerra, o nazismo, e todos os preconceitos fantasiosos, calcados numa ideologia estapafúrdia, e em como isto tudo afetava suas vidas e visão de mundo.

Quando nos deparamos com o inimigo frente a frente, e encaramos sua humanidade, a projeção da sombra confronta-se com a realidade, desestruturando nossas crenças e preconceitos. Afinal, Elsa não parece o monstro judeu que Jojo imaginava, nem Jojo é um nazista feroz querendo, de fato, destruir os judeus do mundo. Eles, enquanto indivíduos, não correspondem aos estereótipos de raça e de agressividade, muito menos de perigo um para o outro.


Fanatismo Cego


Captain Deertz (para Jojo, enquanto examina seu quarto): - Queria que mais de nossos garotos tivessem seu fanatismo cego.


O fanatismo cego de Jojo, e de muitos alemães durante o nazismo, assemelha-se a qualquer fanatismo político ou religioso.

Para alinharmos o conceito de fanatismo aqui utilizado, sigo esta definição:

Fanatismo (do francês "fanatisme") é o estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema, historicamente associado a motivações de natureza religiosa ou política. É extremamente frequente em paranoides, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se do delírio.

Em Psicologia, os fanáticos são descritos como indivíduos dotados das seguintes características:

1. Agressividade excessiva;

2. Preconceitos variados;

3. Estreiteza mental;

4. Extrema credulidade quanto a um determinado "sistema"

5. Ódio;

6. Sistema subjetivo de valores;

7. Intenso individualismo;

8. Demora excessivamente prolongada em determinada situação/circunstância.

Caracteriza-se pela conduta marcada por radicalismo e por absoluta intolerância para com todos os que não compartilhem suas predileções.

De um modo geral, o fanático tem uma visão-de-mundo unilateral, rígida, cultivando a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar, levando-o a adotar condutas irracionais e agressivas que podem, inclusive, chegar a extremos perigosos, como o recurso à violência para impor seu ponto de vista.

Ora, ao analisarmos esta definição bastante detalhada, compilada de varias fontes, observa-se que o fanatismo de Jojo não atende necessariamente aos requisitos, já que seu fanatismo caracteriza-se muito mais por uma imitação de um padrão de comportamento social, por um contagio emocional a que as pessoas são levadas ao participar de um grupo onde o senso crítico não está, ou não pode estar presente. Podemos inclusive afirmar que o fanatismo de Jojo caracteriza-se por uma imaturidade, uma necessidade de identificação com um determinado grupo, como tão bem definiu Elsa.

Sociedades totalitárias fazem com que as pessoas se comportem dentro de uma persona adaptada às suas exigências, seja por medo, seja por sentirem que estão isoladas e incapazes de alterar o ambiente à sua volta.

Não é fácil sobreviver à repressão, ao medo da própria morte e de nossos entes queridos. O desejo de liberdade se esconde atrás do desejo de sobrevivência, e onde não há espaço para questionamentos, não há desenvolvimento de raciocínio crítico. O raciocínio crítico explicito encontra-se bastante presente em Rosie, mãe de Jojo, e em Elsa, mas também está presente nas falas e atitudes do Capitão Klenzendorf, cheias de ambivalências e de críticas veladas.

Captain Klenzendorf (para as crianças no campo de treinamento) : - Nos próximos dois dias, vocês, criaturinhas, experimentarão algumas das coisas que o poderoso exército alemão passa todos os dias. E mesmo que pareça que nosso país está em segundo plano, e realmente não há muita esperança de que ganhemos esta guerra, aparentemente, estamos indo muito bem.

Esta, aparentemente motivadora palestra do Capitao Klenzendorf, é cheia de contradições. Ele tenta incentivar estas crianças a participarem de um treino de campo de guerra, mas ele próprio não acredita no que faz, nem que os resultados deste treinamento possam ser satisfatórios. Ele se assemelha a um funcionário burocrático que faz aquilo que lhe é mandado, cumpre o papel que se espera dele, mas tem uma crítica, ainda que parcialmente velada de toda a situação. Ele não parece acreditar na superioridade do exército alemão, nem em suas técnicas de treinamento de guerra. Na verdade, este personagem, apresenta alguns sinais de compaixão velada, que vem a se manifestar explicitamente, apenas em seu último ato heroico.

De certa forma, Jojo estava exposto à critica sobre a guerra, ao nazismo, e ao próprio Hitler muito mais do poderíamos supor à primeira vista.

O próprio Hitler, projetado como seu amigo imaginário, é um compendio de características do próprio Hitler, misturados com a fantasia de um herói ( ou anti-heroi?) construído dentro do universo de uma criança ingênua e bastante imatura.

Esta cena é uma das primeiras do filme, e merece uma atenção detalhada.


Jojo está se olhando no espelho



Jojo: Jojo Betzler. 10 anos. Hoje, você se junta às fileiras do Jungvolk, em um fim de semana de treinamento muito especial. Vai ser intenso. Hoje, você se torna um homem.

Adolf, acho que não consigo fazer isso. Adolf: O quê? É claro que você pode. Claro, você é um pouco magro, e um pouco impopular, e você não pode amarrar seus cadarços, mesmo que você tenha 10 anos de idade. Mas você ainda é o melhor, o mais leal nazi que eu já conheci. Sem mencionar o fato de que você é muito bonito. Então, você vai chegar lá, e nós vamos nos divertir muito, ok? Jojo: Ok. Adolf: Esse é o espírito!

Aqui vemos um garoto inseguro, com pai ausente, tentando fazer parte e ser aceito em determinado grupo, considerado de elite. Este é um dos apelos mais eficazes e mais cafajestes do marketing, tanto político, comercial ou religioso, que é o de fazer as pessoas acreditarem que para serem aceitas e amadas precisam se submeter à aceitação de um grupo específico, e de seus abusos. As sociedades ancestrais sempre tiveram seus ritos de iniciação, que geralmente implicavam em aprender técnicas de sobrevivência, ritos de puberdade, de amadurecimento e de comportamento grupal, onde a importância da colaboração, da humildade e da coragem sempre foram exacerbadas.

Os ritos são importantes para a inserção social, mas quando manipulados a serviço de relações de abuso e de poder, perdem seu significado e podem ser automatizados de maneira desintegrada da personalidade, causando, além de possível rejeição, fanatismo e obediência cegas, obstrução do desenvolvimento do senso critico e da percepção dos próprios limites, pensamentos e emoções.

Jojo quer fazer parte da juventude nazista, é um rito de passagem que se oferece, não de maneira natural, mas forçada e por razões vis, afinal, crianças estavam sendo treinadas para a guerra, não porque eram especiais, e sim porque os adultos disponíveis para lutar na guerra estavam mortos ou mutilados.

A constelação do arquétipo do herói também pode ser manipulada por falsas razões, e isto caracteriza os regimes fanáticos de todos os tipos, onde se convence pessoas a sacrificarem suas vidas pelo bem de uma causa ou de um ideal, mesmo que isto esteja a serviço apenas da preservação do poder e do privilegio de poucos, como a historia nos mostra constantemente.

Onde o pai real está ausente, com suas normas, limites, e estruturas confiáveis, há abertura para que a imagem do pai arquetípica, incorporada e construída pela propaganda, tanto nazista, quanto a de qualquer regime político ou religioso totalitário, assumir o status de deus arquetípico, sendo confundido com as características mitológicas da figura do herói.

O confronto entre a imagem paterna real e a arquetípica, característica do desenvolvimento da personalidade, ao invés de lidar com um pai real, acaba tendo que lidar com um pai idealizado e construído socialmente, através de valores sombrios e fanáticos. A honra, valor maior do patriarcado, passa a ser cobrada em atitudes muitas vezes nada honradas, em que fazer parte do grupo e de seus ideais fanáticos substitui o sentimento de pertencimento legitimo a um grupo ao qual nos sentimos genuinamente incluídos. Isto representa uma violência psíquica, uma violação ao processo de individuação, trazendo graves consequências ao indivíduo e à sociedade à qual este pertence.

Neste sentido, a presença do Capitão Klenzendorf, ao qual Rosie encarrega de cuidar de Jojo enquanto ela se ausenta para o trabalho, junto com Finkel, seu assistente de comando, trazem o aspecto afetivo dos cuidados paternos para a vida de Jojo.

Estes dois soldados, que cumprem seu dever de maneira muitas vezes debochada e cética, oferecem um aspecto lúdico, carinhoso, criativo, onde homens desenham e criam divertidos uniformes de guerra, demonstrando que eles próprios não levavam esta guerra com a mesma seriedade atribuída a seus cargos.

Jojo: - Pare de me oferecer cigarros! Eu tenho dez anos!

Adolf: - Tudo bem! Desculpe, estou estressado!

Colocar limites às intervenções e abusos é sempre uma tarefa difícil. Adolf oferece cigarros a Jojo o tempo todo, ao que ele recusa educadamente. Porém, quando suas convicções fanáticas passam a enfraquecer, ele, pela primeira vez, contesta Adolf e sua insistência em insistir que ele aceite os cigarros, comportamento absolutamente reprovável de um adulto em relação a uma criança. Simbolicamente, Jojo passa a questionar a influência toxica da imagem de Adolf Hitler em sua vida, e tudo o que isto representa. O cigarro seria o símbolo do comportamento viciante, capaz de prejudicar a saúde, tanto a curto quanto a médio e longo prazo. Ao recusar a oferta de cigarros de maneira enfática, Jojo demonstra que não está mais disposto a aceitar toda e qualquer influência de seu amigo imaginário, explicitando a inadequação de seu comportamento. O respeito e o “fanatismo cego”, tão elogiados pelo Captain Deertz parecem ter perdido força.


O senso de humor crítico introduzido por vários personagens, entre eles por Fraulein Rahm, trás situações tão absurdas quanto o constante oferecimento de cigarros por Adolf a Jojo.


Uma das características de manipulação dos regimes totalitários é trazer um deboche constrangedor, fazer com que o outro seja ridicularizado para traze-lo para perto de convicções antes rejeitadas é uma forma de manipulação muito utilizada no bullying, mas também na formação de grupos e fraternidades.

Fraulein Rahm é ima porta voz das ideias nazistas, e também do ideal misógino implícito nesta sociedade.

Ela diz: - “Agora, peguem suas coisas, crianças. É hora de queimar alguns livros!” Dando uma conotação lúdica a um ato dos mais transgressores contra a cultura.

Ou quando diz, orgulhosa, quantos filhos “forneceu” para a causa nazista, ou ao oferecer armas a Jojo, tal qual Adolf oferece cigarros. Os gestos aparentemente cordiais, de ambos, além de não respeitarem a condição da infância, da maternidade e da educação, mostram um comportamento totalmente dissociado de qualquer autocritica. Qualquer semelhança com alguns líderes políticos e religiosos não é mera coincidência. Estas táticas de manipulação e de controle das massas já foi muito bem estudada.

A imaginação como forma lúdica de lidar com a realidade



Jojo e Rosie, sua mãe, tem muito em comum. Ambos usam a imaginação como forma de lidar com a dura realidade. Jojo imagina Hitler, chamado carinhosa e intimamente de Adolf, como se este fosse um garoto da sua idade, desajeitado e desengonçado como ele, aprendendo a lidar com as circunstâncias da vida, e disposto a perdoar suas falhas.

Rosie tenta usar o bom humor e a fantasia para sobreviver às agruras da guerra, encobrindo suas ideias de resistência e de combate ideológico ao nazismo, arriscando a própria vida e a de seu filho para esconder Elsa. Ela finge não ter apetite para salvar alguma comida para Elsa, ela se refere metaforicamente a “mastigar uvas”, ao beber uma taça de vinho, como se este fosse o alimento suficiente para ela, levando com bom humor a realidade da fome vivenciada em tempos de guerra. Ela procura ver a leveza das pequenas coisas da vida. É afetiva e carinhosa, tanto com Jojo, quanto com Elsa, fazendo-lhe companhia sempre que possível, tentando aliviar sua solidão.

Rosie ainda ajuda Jojo a enfrentar o mundo. Ela o faz sair de casa e enfrentar a vergonha das cicatrizes e dos problemas de locomoção, causados pela desastrada explosão de uma granada. Ela aceita o fanatismo do filho como parte de uma situação que está fora de controle para ambos, porém sem rejeitá-lo e condená-lo por isso, nem tentando demovê-lo de suas convicções, pois parece perceber que isto seria uma questão de tempo e de amadurecimento.

A imaginação e a fantasia permeiam uma linguagem simbólica cheia de cumplicidade e afeto, que caracterizam a relação mãe e filho, mas não impedem Rosie de fazer seu filho encarar os corpos enforcados na praça.


Imaginação e realidade não são incompatíveis, porem complementares, na medida em que a imaginação também é uma importante ferramenta de transformação da consciência.


Através da imaginação, podemos ensaiar a vida, as emoções, as reações das pessoas, desenvolver novos repertórios de ação e elaboração dos processos inconscientes. A imaginação pode nos ajudar a nos preparamos para enfrentar a realidade que nos aguarda, e a recuperar nossas energias, no espaço íntimo e sagrado de nossas mentes.

Yorki - A voz da consciência


O personagem Yorki traz observações bastante interessantes durante toda a narrativa. Suas observações ingênuas, espontâneas e afetivas trazem doçura a uma estória que poderia ser muito mais pesada do que de fato é.

Yorki se destaca como a voz da razão, não por sua sabedoria, mas pela consciência de seus próprios limites e dos seus sentimentos, e como porta voz de questionamentos que ninguém se permite fazer, ele diz coisas do tipo:

Referindo-se aos judeus: - “Mas como iremos saber quando virmos um? Eles podem se parecer exatamente como nós.”

Ou quando Jojo tenta lhe mostrar que bastaria ele se ater aos estereótipos preconceituosos no reconhecimento de judeus, ele diz – “Acho que eu sou apenas um menino num corpo gordo de criança.” Ou quando se refere à morte de Rosie, após dizer que sentia muito a falta do amigo – “Eu sinto muito por sua mãe. Eu chorei por séculos quando soube o que aconteceu.”

Ou neste diálogo:

Jojo: - Nada mais faz sentido.

Yorki: - Sim, eu sei. Definitivamente não é uma boa hora para ser um Nazista.


Ou quando Yorki apenas diz que precisa ir para casa, ver sua mãe, pois precisa de um abraço, ou seja, agora esta livre para ser ele mesmo, uma criança que precisa de cuidados, carinho e proteção, e não ser um soldado lutando em uma estupida guerra.


Yorki não banaliza os sentimentos, a carência, a tristeza, a inadequação, reconhece sua própria condição de criança que deve, agora, retornar à sua realidade, a de uma criança que precisa do carinho e da proteção de sua família.

Este pequeno diálogo entre Jojo e Yorki, após a constatação de que os nazistas haviam perdido a guerra, mostra a conscientização, ainda que pueril, de que as coisas não haviam sido avaliadas corretamente por eles no curto espaço de tempo de suas jovens vidas, e de que, certamente, continuar a seguir cegamente a ideologia nazista não fazia mais sentido. Ambos tentam ser adequados e encontrar um lugar no mundo, mas qual o exemplo confiável que nossa sociedade dá aos nossos jovens quando os colocam à mercê de crenças cegas e fanáticas?

A redenção, ou o processo de amadurecimento pessoal e, por que não, ideológico de Jojo, se dá quando ele chuta seu Adolf imaginário para fora da janela. Após tudo pelo que Jojo passou, não é mais possível idolatrar um seu amigo imaginário. Aliás, seria possível que algum ídolo fosse algo além de imaginário?

Idolatrar alguém implica em projetar neste alguém características arquetípicas, que ultrapassam as características e qualidades humanas, atribuindo-lhe um poder e sabedoria que não correspondem aos fatos.

Abandonar idolatrias e as projeções de imagens heroicas e mitológicas a figuras de poder pode ser a diferença entre uma vida plena ou escravizada.

O mito da salvação, e do salvador, precisa ser vivido e elaborado de forma simbólica, e não projetado e carregado como verdade objetiva, na figura de algum “escolhido” qualquer.

Assumir o próprio destino, escolhas e responsabilidades, e delegar ao outro apenas o que lhe compete dentro de suas humanas possibilidades, é uma tarefa certamente desafiadora, e sinal de que o processo de individuação se libertou de alguns complexos de dependência e de inferioridade.

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Referências Bibliográficas

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GUGGENBHUL-Craig, Adolf – "Eros de muletas" – sobre a natureza da psicopata – Primavera Publications, Inc., Dallas, Texas, 1996

JUNG, Carl Gustav - CW VII – "Dois ensaios de psicologia analítica"

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CW-XVI – “A prática da psicoterapia”

KAST, Verena – "A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana". ISBN-10 0880642017, ISBN-13 978-0880642019

"Imaginação como espaço de liberdade: diálogo entre o Ego e o inconsciente". ISBN-10 0880642025. ISBN-13 978-0880642026

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