GET OUT! – Admiração e inveja - faces ocultas do preconceito?

Atualizado: Jun 28



Quando um assassinato deixa de ser anônimo.

Após o brutal assassinato de George Floyd por um policial americano em 25 de maio de 2020, e das sucessivas manifestações antirracismo que se espalharam por vários estados americanos e outros países do mundo, as discussões sobre os índices de violência contra negros, não apenas nos Estados Unidos, como em vários outros países, tiveram a atenção da imprensa do mundo todo.

O Brasil tem um índice de assassinato de negros alarmante, muitos entre eles são crianças e adolescentes, alguns, inclusive, assassinados dentro da própria casa, pela própria polícia que deveria protegê-los.

Vale ressaltar, com imenso pesar, que a grande maioria dos assassinatos cometidos contra negros, inclusive o da vereadora Marielle Franco, brutalmente fuzilada junto com seu motorista Anderson Pedro Mathias Gomes costumem ficar impunes.

A imagem de um assassinato sendo filmado ao vivo, enquanto um público atônito a tudo assistia, impotente, sem nada poder fazer para impedir, pode ter sido o estopim para uma indignação que já existia vir se manifestar de forma veemente.

Toda situação de abuso, seja de poder, emocional ou sexual se vale do embate de opiniões entre as palavras das vítimas e dos algozes, porem neste caso, a imagem tão dramática de um homem morrendo asfixiado enquanto dizia que não podia respirar, não deixou dúvidas sobre quem era a vítima e quem era o algoz.

O fato de um policial branco assassinar um homem negro na frente de uma câmera, de uma maneira sádica e prepotente, aparentemente sem medo algum de sofrer represálias, abriu as feridas mal cicatrizadas de uma vergonhosa história de escravidão que assolou os Estados Unidos, o Brasil, e tantos outros países, deixando um racismo estrutural em nossas culturas, tão difícil de combater quanto de se tornar consciente.

A escolha do filme Get Out![1] ou Corra! como ficou conhecido no Brasil, se dá num momento em que as feridas traumáticas oriundas do preconceito e da segregação racial invadiram o processo terapêutico de muitos analisandos, trazendo à tona feridas que o próprio indivíduo nunca tinha sido consciente anteriormente. O mesmo se deu quando denúncias de abuso sexual tornaram-se mais comuns e suas vítimas passaram a ser minimamente ouvidas, várias pessoas que haviam sofrido abuso no passado só tiveram consciência do abuso ao se identificar com os relatos das outras vítimas, passando a validar os próprios sentimentos de desconforto e as consequências traumáticas do abuso em suas vidas.

Quando recuperamos a nossa capacidade de nos indignar percebemos que o conformismo e a não ação tinham se tornado cumplices de desmandos e de atrocidades.

Indignemo-nos!

Get Out!

Embora o título do filme tenha sido traduzido para - Corra! em português, seu significado em inglês é mais enfático do que isto, podendo significar - Fuja! Suma daqui! Quando nos deparamos com a cena em que Logan grita desesperadamente para Chris – Get out! entendemos o verdadeiro significado do título escolhido para o filme.

Também não podemos deixar de pensar na política de segregação racial onde negros não podiam, ainda até há bem pouco tempo, frequentar os mesmos lugares que os brancos, sendo literalmente postos para correr, sob socos, pontapés e muito mais. Esta cena, que dá título ao filme, dá voz ao sentimento de que um negro pode não estar seguro em meio a um ambiente dominado por brancos, e que seria melhor fugir dali enquanto é tempo. Lembram do filme Green Book[2], onde um famoso pianista negro não podia jantar no elegante restaurante em que ele era a atração principal?

O sequestro e o símbolo do coelho

O filme se inicia com o sequestro de um jovem negro, que caminha sozinho por uma rua do subúrbio, enquanto fala ao telefone com alguém que parece ser um possível encontro, Ele parece receber instruções sobre o caminho a percorrer, mas estas indicações parecem deixá-lo ainda mais perdido. A primeira cena já indica que o rapaz havia sido levado à uma armadilha.

Ele é perseguido e jogado no porta malas de um carro por um homem que usa um elmo na cabeça, que mais tarde descobrimos se tratar de Jeremy Armitage. Tudo isto ocorre ao som da música “Run, rabbit! Run!

O símbolo do coelho[3], um dos símbolos de fertilidade e de renascimento, associado à capacidade de eterna regeneração e de auto sacrifício, é também um símbolo de imortalidade e amor. Estranha trilha sonora para um sequestro, porem totalmente pertinente para o enredo do filme.

Vários aspectos do preconceito contra pessoas negras são bastante explorados neste filme, retratando o preconceito atávico construído pela cultura escravocrata, e são retratados em vários comportamentos dos brancos em relação ao Chris neste filme:

1- Os negros são melhores amantes;

2- Os negros são mais fortes, possuindo um físico privilegiado;

3- Os negros não envelhecem;

4- Os negros são mais resistentes à dor; (vários negros foram utilizados de cobaia para cirurgias sem anestesia...)

5- Os negros são mais férteis do que os brancos;

6- Os negros têm os dentes mais fortes e bonitos; (vários escravos tiveram seus dentes arrancados e usados em dentaduras estranhas por seus donos na era colonial...)

Claro que esta lista pode crescer de maneira fabulosa, fiquem à vontade para acrescentar o que deixei de lado.

Podemos notar que vários comentários racistas, na verdade, escondem inveja e admiração, e uma certa projeção de um caráter heroico e divino, subvertido a situações de abuso, controle e tentativa de submissão – se não posso ter as características que admiro no negro, vou submete-lo ao meu desejo e à minha vontade, revelando uma inveja patológica daquele que se despreza.

O desaparecimento de pessoas negras, não recebe a mesma atenção que o de pessoas brancas, assim como o julgamento de crimes supostamente cometidos por pessoas negras tende a ser muito mais rígido em relação à punição atribuída, quando compara-se estes mesmos crimes quando cometidos por pessoas brancas. Neste sentido, negros estariam muito mais vulneráveis a qualquer tipo de violência, sendo que seus agressores não seriam sequer punidos por isso, numa clara alusão à filosofia escravagista em que os senhores de escravo tinham poder de vida e morte sobre os escravos que lhe pertenciam, ou os maridos e pais, que detinham (ou ainda detém, em várias sociedades, declaradamente ou não...) poder de vida e morte sobre suas mulheres e filhos.

Em seguida, temos um outro rapaz, um fotografo negro, Chris Washington, que concorda relutantemente em conhecer a família de sua namorada branca, Rose Armitage. Ela assegura que os pais não são racistas e que ele é seu primeiro namorado negro. O amigo de Chris, Rod Williams tenta convencê-lo de que é burrice ele aceitar ir à casa dos pais de uma garota branca. Ao ouvir isto, Rose insinua que Rod pode estar interessado nela, por isso tenta evitar que o relacionamento dos dois se estreite. Numa cena anterior, vemos Rose comprando o café da manhã do casal, e quando ela percebe que o homem que está atrás dela é negro, começa a se insinuar para ele. Desde as primeiras cenas temos pistas de que há algo de errado no interesse de Rose por Chris, ou de que ela poderia ter um interesse especial por homens negros, conforme preconceito número 1, citado anteriormente.

O atropelamento do veado e seu simbolismo

Rose acaba atropelando um veado, que o remete à lembrança da morte de sua mãe por atropelamento.

Quando um policial vem checar o acidente, Rose fica muito nervosa quando este pede os documentos de Chris, como que dando a entender que o policial quer os documentos dele por questões racistas, mas percebe-se que seu comportamento parece uma encenação de um discurso antirracista pouco convincente. Na verdade, ela prefere que o policial não tenha conhecimento da identidade de Chris.

O atropelamento do veado dá o tom trágico do filme. Sendo o veado[4] um símbolo de sublimação, um representante da superioridade e pureza espiritual, símbolo da fertilidade, gentileza, suavidade, graça, intuição, bondade e paz, e de uma conexão dos humanos com os deuses, seu brutal atropelamento indica que estes valores por ele representados podem estar sendo igualmente massacrados, tanto por Rose, quanto por sua família.

Como se não bastasse o atropelamento do veado na estrada por Rose, o pai de Rose, Dean, exibe uma cabeça de veado como troféu na parede, mostrando um verdadeiro escarnio pela morte do animal na estrada.

O trauma da vitória de Jesse Owens e o preconceito enrustido

Ao meio de uma recepção forçadamente simpática, comentários racistas disfarçados vão sendo expostos de uma maneira tão cínica e prepotente que é difícil superar o mal-estar causado. Dean se refere a seu pai ter sido um atleta que perdeu para Jesse Owens nas eliminatórias das Olimpíadas de 1936, exatamente quando Hitler tentava provar a superioridade da raça ariana.

A vitória de Owens foi um choque de realidade deveras traumático para a fantasia da superioridade ariana que sustentava o nazismo e tantas das ações escravagistas e preconceituosas que temos até hoje. No entanto, o destaque que atletas negros costumam ter nos esportes, ao invés de amenizar ou confrontar o preconceito, exacerbou o preconceito de uma maneira ainda mais dissimulada. Ainda hoje aceita-se a inserção de negros nos esportes e na música, porém seu ingresso na vida acadêmica e política não tem sido, exatamente, estimulado. Quer dizer, continuam servindo para lazer e recreação, numa objetificação continuada de corpos, vidas, talentos e criatividade.

Quando Dean se refere a que votaria em Obama uma terceira vez se pudesse, não enfatiza o fato de Barak Obama ter sido, em meu humilde ponto de vista, o melhor presidente que os Estados Unidos já teve, mas sim usa uma frase padrão, tentando dissimular o racismo, fato que se repete durante todo o filme.

As qualidades atribuídas aos negros durante toda a visita de Chris à família de Rose parecem um desfile de frases preconceituosas travestidas de aceitação aberrante.

Ao apresentar a casa para Chris, Dean ressalta que a porta que daria para o andar de baixo não deveria ser aberta, pois aquele cômodo estava com mofo ou algo do gênero. Esta proibição relembra o conto do Barba Azul, e tantos outros mitos e contos de fadas onde há uma área da casa de acesso proibido, cujo significado geralmente se refere ao esconderijo de um grande segredo, usualmente relacionado à sombra de um indivíduo ou de um grupo. Este cômodo proibido, na verdade, esconde um cativeiro e uma sala de cirurgias clandestina.

Na maior parte das vezes, os cômodos proibidos de uma casa simbolizam aspectos inconscientes ou repreensíveis pela sociedade, devendo ficar fora do alcance da atenção daqueles que não compartilham do mesmo segredo ou de suas ideologias. Assim funcionam vários clubes e irmandades secretas[5], entre eles a Ku Klux Kan e vários grupos nazistas que ainda existem em vários países, inclusive no Brasil.

Os pais de Rose, Dean e Missy, são, respectivamente, neurocirurgião e hipnoterapeuta, profissões que se mostram complementares, assim como a participação dos filhos Rose e Jeremy. Esta família parece totalmente afinada, onde o papel de um complementa o papel do outro, e todos alinhados com um ideal comum: Rose e Jeremy atraem as vítimas, Rose pela sedução e Jeremy pela força. Rose foi a responsável por atrair Georgina e Walter, ambos empregados da casa, que mais tarde se revelam terem recebido o cérebro dos avós. Interessante notar que os pais de Dean ganham uma nova chance de continuar vivos, porém não assumem papel de destaque na família, como no caso de Logan, que assume um papel de marido de uma mulher branca 30 anos mais velha.

Georgina e Walter também não parecem felizes com seu destino, e o processo de implantar parte do cérebro das pessoas em corpos mais jovens os deixa pouco naturais, lembrando bastante as réplicas de mulheres do filme The Stepford Wives[6].

Ao tentar imortalizar ou controlar uma alma humana, seja por criar uma imitação robótica, seja por uma hipotética cirurgia de parte do cérebro de alguém, como ocorre neste caso, fazem com que Georgina e Walter não sejam nem uma coisa, nem outra, quer dizer, não são mais quem eram anteriormente, nem os idosos que foram transplantados, nem aqueles que doaram seus corpos involuntariamente. Estes se tornam híbridos grotescos, onde os desejos e identidades interiores estejam em eterno conflito com as identidades implantadas.

A relação de submissão e controle entre senhores e escravos


Isto nos remete à falsa submissão de escravos e de pessoas em condição de escravidão ou abuso emocional. Parte da personalidade tenta se adaptar, muitas vezes por questão de sobrevivência, à situação de submissão e controle, e parte da personalidade permanece em constante estado de revolta. A síndrome de Estocolmo parece ser relevante quando nos referimos a este tipo de relação. Amor e ódio, desejo e repulsa, admiração e inveja se alternam numa dança sadomasoquista sem fim. Agressões acontecem de maneira velada, afinal, é preciso manter o algoz satisfeito, a fim de se evitar prováveis retaliações. Retaliações geralmente não podem ser evitadas por bom comportamento, as crianças vítimas de pais narcisistas sabem muito bem disso. Não podemos nos esquecer que quem se acha possuidor de alguém quer mantê-lo sob seu domínio a qualquer custo, sendo assim, maus tratos e abusos devem ser taticamente bem planejados. Muitos senhores de escravo sabiam muito bem quais técnicas de tortura utilizar, a fim de punir, mas sem perder seu objeto de investimento. O mesmo comportamento pode ser encontrado em relações conjugais abusivas, por pedófilos e pais narcisistas.

O outro como objeto de posse e de desejo

A objetificação das relações, seja por preconceito de raça, cor, gênero e ou ideologia trazem sentimentos ambivalentes, onde ao mesmo tempo o sujeito se sente todo poderoso em ter a posse deste indivíduo, mas também torna-se dependente deste mesmo indivíduo que o faz se sentir especial, seja pela submissão, pelo controle, ou pelo afeto desvirtuado, contaminado pela sombra, que cresce entre eles. Podemos comparar este sentimento ao sentimento de posse por algum objeto, seja um vaso, um relógio ou coisa do gênero, este objeto é usado, exibido, muitas vezes desprezado, mas nos aborrecemos caso este quebre ou seja tirado de nós.

A escravidão torna seres humanos em objetos, e esta objetificação talvez seja um dos empecilhos que ainda hoje torne o fim do preconceito tão difícil. Quem gostaria de sentir em igual importância com um objeto? Isto serve para negros, mulheres, crianças, LGBTQ e imigrantes de todas as origens em todos os tempos. Pessoas que tiveram ao longo da história o papel de cuidar de funções consideradas menores ou inferiores não são consideradas merecedoras de ocupar o status de um “igual”, caso contrário quem se julga superior considera que está perdendo seu status de superioridade, e não o contrário.

Cabe ressaltar que a escravidão já existia desde os tempos do antigo Egito, onde os prisioneiros de guerra eram condenados ao trabalho escravo. Mesmo nesta época, já havia escravos que eram destinados ao trabalho braçal, seja doméstico ou de construção e coisas do tipo, como também à prostituição e, em alguns casos, como professores e escribas, já que alguns destes escravos vinham de uma situação social e cultural semelhante ou até mesmo superior aos seus proprietários.

Quando na ocasião do tráfico de escravos vindos da África, estas pessoas pertenciam a culturas e religiões desconhecidas no continente europeu, e por esta razão, foram consideradas inferiores. Parafraseando Caetano (o Veloso...)[7], Narciso acha feio o que não é espelho...[8] e estas diferenças culturais, quando classificadas como inferiores, facilitaram a objetificação do outro, não apenas por ser diferente, mas por não nos servir de espelho. Tomar o outro por escravo ou súdito tem sido parte importante da história, atitude justificada por razões religiosas e filosóficas as mais variadas, denunciando uma sociopatia histórica coletiva, antes exercida como se fosse parte da normalidade, hoje explorada de maneira sombria e criminosa.

A escravidão continua fazendo parte de nossa sociedade, pois não podemos nos esquecer do tráfico de mulheres e crianças para fins de prostituição e pedofilia, tantas vezes acobertados por grandes líderes políticos e religiosos, isto sem falar do trabalho escravo, ainda uma realidade sórdida em vários recantos do Brasil, muitas vezes, inclusive, dentro dos grandes centros sob o comando de cidadãos escondidos atrás de uma persona das mais respeitáveis.

A consciência do preconceito como forma de proteção

A ilusão de que o preconceito não existe torna a vítima refém de perigos que não consegue prever ou imaginar.


A ilusão de que estamos numa situação de conforto nos torna presas indefesas, e Rod, amigo de Chris, representa este contato com a realidade, ainda que parcialmente ingênuo, quando denuncia o desaparecimento de Chris para a polícia. Ele é ingênuo ao acreditar que estando na presença de outros policiais negros, seria ouvido. Estes policiais, na verdade, parecem ter aderido, mesmo que de forma inconsciente ao racismo sistêmico de que são vítimas, comportamento muito semelhante aos capitães do mato[9] que perseguiam e capturavam os escravos que fugiam, e também eram encarregados de vigia-los e tortura-los, evitando que os senhores brancos fizessem o trabalho sujo. Os policiais acham que Chris está acreditando em teorias conspiratórias irreais e fazem dele motivo de chacota. Portanto sua do desaparecimento tanto de Chris, quanto de André, não são levadas a serio.

Porém Rod está muito mais consciente dos perigos do racismo estrutural em que vivem. Ele é um agente da TSA (Transportation Security Administration), órgão criado em resposta ao ataque terrorista de 11 de setembro. No entanto, ele se descreve como um agente de controle de imigração, tendo consciência de que a luta antiterrorismo tornou-se uma ferramenta de controle migratória. Não podemos nos esquecer que os imigrantes seriam os alvos de preconceito da vez, numa resposta contraria à própria globalização mundial. Grande parte destes imigrantes, muitos ilegais, acabam sendo submetidos a condições de trabalho iguais ou semelhantes ao trabalho escravo, e sua presença costuma ser tolerada com “vista grossa” pelas elites, que não podem dispensar o trabalho oferecido por estes indivíduos. Os imigrantes representam hoje, para a economia dos países ricos, o mesmo que os escravos representavam no passado, mão de obra barata, sem direitos, apenas deveres. Grandes empresas valem-se da condição de ilegalidade imigratória de seus funcionários, ou do desconhecimento que estes tenham das leis, para perpetuar a submissão.

Rod cita o desaparecimento de André como um possível caso de sequestro para fins de exploração sexual, o que não deixa de ser verdade, já que André assume a vida de Logan King, casado com uma mulher branca cerca de 30 anos mais velha do que ele. Isto não deixa de ser uma escravidão sexual, não é mesmo?

O processo de transplante cerebral também é bem interessante, já que a personalidade do, digamos assim, dono do corpo, não é totalmente extinguida, mas sim deixada num local profundo dentro do cérebro.

O processo não visa eliminar totalmente as características do doador involuntário, já que estas suas características especiais o tornam desejável. Chris é vendido para Jim Hudson, num leilão macabro. Jim é um negociante de arte cego, que admira o trabalho de Chris como fotografo, e declara, antes da cirurgia, que quer ver o mundo através dos olhos de Chris, o que nos faz suspeitar que o sequestro de Chris, como os anteriores, pode ter sido encomendado pelos possíveis clientes.

A grande diferença entre este filme de terror e o The Stepford Wives é que, neste caso, a pessoa real de quem se quer extrair algum talento ou capacidade é minimamente preservada, enquanto em Stepford Wives as esposas eram substituídas por robôs que apenas imitavam o comportamento humano. Claro que em nenhum dos casos a substituição é perfeita, já que todas as vítimas deste procedimento chamado Contemple o Coagula parecem hipnotizados e artificiais.

Também é interessante notar o fato do flash da câmera fotográfica de Chris tirar André temporariamente de sua personalidade hospedeira, Logan. Ao lembrar que o processo de hipnose de Missy implica em colocar a personalidade da vítima “afundada”, ou seja, inconsciente, isto nos remete ao filme Fragmentado[10], onde as personalidades dissociadas de Kevin precisam da luz[11] para ter acesso à consciência e poder se manifestar. Neste flash de consciência em que André desperta, ele diz a Chris, visivelmente desesperado – Get ou! Ou Caia fora daqui! pois sabe que Chris será a próxima vítima, tendo um destino semelhante ao dele.

Não vou entrar na discussão sobre os métodos de hipnose ou de cirurgia neurológica abordados no filme, pois fazem parte da linguagem simbólica do diretor, que traduz brilhantemente o processo de captura, subjugação e de lavagem cerebral dos escravos a serem doutrinados durante o filme.

A primeira coisa que se fazia ao chegar um carregamento de escravos no porto, era separá-los de maneira que membros de uma mesma tribo, crenças religiosas ou grupo familiar não ficassem juntos. A tática de despersonalização cultural faz parte do processo de dominação, inclusive muito utilizada nas Cruzadas Católicas e nas invasões colonialistas de modo geral. Impor a religião tem sido uma das mais importantes, ou provavelmente a mais importante de todas as formas de dominação e controle de um povo. Este processo foi parte importante do processo de colonização e conquista, principalmente no Brasil e no México.

Isolar o indivíduo de seus pares, crenças e cultura os deixa mais susceptíveis às influências da cultura e da dominação de seus novos proprietários (ou dos países que recebem os imigrantes e refugiados). Até que ponto a resistência entre os imigrantes em se adaptarem aos hábitos e costumes do novo país em que habitam não seria uma tentativa inconsciente de não perder a identidade, fato que incomoda, e muito, os países receptores destes imigrantes, que tantas vezes acabam se concentrando em guetos por muitas décadas, levando às vezes até 3 gerações para que uma integração que respeite ambas as culturas possa começar a se estabelecer.

­­­Contemple o Coagula

A família Armitage parece totalmente perdida na busca do processo de individuação. Como os antigos alquimistas, eles buscam a pedra filosofal da individuação na transmutação da matéria, ou seja, na fusão de duas mentes num só corpo, esperando que a Coagulatio ocorra de uma maneira determinada pela função egóica e narcisista do desejo de se imortalizar num corpo considerado superior. A aparente sensação de superioridade dos Armitage se esvanece na obsessão pela sedução (Rose) dominação (Dean e Jeremy) e sedução e controle (Missy). É claro que a situação desprotegida das vítimas negras em relação às vítimas brancas pode ser considerado um fator facilitador na escolha, afinal, no imaginário racista, consciente ou não, vidas negras não importam de fato. O filme explora isto da maneira mais sádica possível, afinal, os atributos físicos dos negros capturados interessam, mas sua personalidade, ou seja, suas almas, são descartáveis. A filosofia escravocrata do filme vai além do controle e domínio daquele ser escravizado, mas quer trocar a sua alma, substituindo-a pela sua própria, num processo de dominação ainda mais cruel do que tudo o que pudesse ser imaginado.

O processo alquímico de Coagulatio que esta seita prega implica na infusão de uma alma (cérebro) em outro corpo, coagulando as características daquele corpo desejado à alma do comprador daquela peça (peça era como os mercadores de escravos de referiam a eles).

Creio que este processo simbólico representado pelo filme já foi de certa forma abordado nas páginas anteriores, quando me refiro ao roubo da alma e da identidade pessoal e cultural à que escravos (e agora muitos imigrantes...) eram e são submetidos, e que se perpetua num processo insano de adaptação à uma cultura que não aceita o diferente.

Marie Louise von Franz, em seu livro Alquimia[12], se refere ao processo alquímico do Coagulatio na Carta do Sol para a Lua Crescente[13], no entanto, esta tentativa de imitação do processo alquímico representada pela cirurgia de fusão entre corpo e alma não é completa, pois não há nem entrega voluntaria, nem recíproca. Não há possibilidade de individuação sem o sacrifício das necessidades egóicas, no caso dos compradores de corpos negros, nem dos indivíduos que tiveram suas almas extirpadas à força, isto é, numa dissolution eterna.

Jung diz – The solution of the body is the coagulation of the spirit.[14] Os Armitage parecem querer perpetuar a própria existência num processo de reencarnação forçado em um corpo admirado e desprezado, ao mesmo tempo.

Todo preconceito implica em projeção de sombra, e no caso dos Armitage, e de seu entorno macabro, várias qualidades positivas e desejáveis são identificadas em suas vitimas negras, tais como beleza, força física, sensibilidade, superação e sensualidade, a ponto de quererem fundir-se a si mesmos com eles.

O dinamismo patriarcal é predominante durante todo o enredo do filme, onde valores como status, realização, desempenho e autocontrole são super valorizados. Fica claro, desta maneira, do porquê os símbolos do Veado e do Coelho são usados de maneira a se referir ao sacrifício do feminino e do espírito. O espírito, ou os ideais espiritualizados, como o amor, a arte, e o relacionamento onde há reciprocidade de afeto e respeito são vilipendiados.

De acordo com o ponto de vista dos Armitage, Chris precisa ser consertado, isto é, é preciso eliminar seu hábito de fumar antes de ser submetido ao procedimento Coagula.

Há uma fantasia de purificação, muito parecida ao que nosso Vice Presidente Mourão se referia há alguns meses, como o branqueamento da raça (o branqueamento da raça implica em dar valores, e preconceitos diferentes e gradativos, aos vários tons de pele entre branca e negra, termo muito usado no Brasil), que talvez não seja tão bem conhecido em outros países, mas que classifica a miscigenação entre brancos e negros como favorável ou desfavorável, dependendo das características brancas ou negras predominantes nesta comunhão genética. Algo muito parecido com o que o procedimento Coagula busca, ou seja, fico com as características negras que me interessam, e também com as brancas que prefiro, descartando o que não me serve.

No filme em questão, o branqueamento viria através da alma, ou como diz uma outra frase racista bastante comum aqui no Brasil, é negro, mas com alma de branco. Esta afirmação implica em que:

1- O reconhecimento de que um negro possui alma;

2- Por esta razão poderia ser equiparado a um branco;

Isto justificaria o fato de um negro ser tolerável por um branco racista; e no caso do nosso filme em questão, isto foi interpretado literalmente.


Referências Bibliográficas


BERTOLOTTO SCHNEIDER, Solange – A Verdade no processo analítico

VON FRANZ, M. L. – Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia

JUNG, C.G. – CW 9 Arquétipos do Inconsciente Coletivo

CW 12 Psicologia e Alquimia

CW 13 Estudos Alquímicos

CW 14 Mysterium Conjunctionis

The Book of Symbols – Reflections on Archetypal Images – Taschen

REDIKER, Marcus – O Navio Negreiro – Ed. Companhia das Letras 2011

[1] Filme de 2017, escrito e dirigido por Jordan Peele – a sinopse está disponível m vários sites da internet. [2] Green Book, 2019, dirigido por Peter Farrely [3] The Book of Symbols [4] Ibid [5] A Verdade no Processo Analítico, cap. 13. Segredo, a Verdade escondida [6] O filme The Stepford Wives, de 1975, ganhou uma nova filmagem em 2004. O filme [e parcialmente analisado neste artigo: https://www.solangeschneiderpsicologia.com/post/2017/11/30/a-misoginia-mora-nos-detalhes-quem-tem-o-poder-sobre-o-contole-remoto

[7] Caetano Veloso, importante cantor e compositor brasileiro [8] Frase da música Sampa, de Caetano Veloso [9] Os capitães do mato muitas vezes eram homens livres e pobres, mas também podiam ser o filho mestiço do dono dos escravos com alguma escrava, que geralmente havia sido estuprada. Vemos aqui a correlação do preconceito também com a pobreza. [10] Fragmentado, filme de 2016, dirigido por M. Night Shyamalan, cuja análise encontra-se neste link: https://en.solangeschneiderpsicologia.com/post/2017/04/10/fragmentado [11] Este aspecto da comparação da luz com o despertar da consciência é analisado em Fragmentado. Link acima. [12] Alquimia, von Franz [13] When we go up in the order of the Sheikhs, or the old men, the glowing substance of thy light will be united with my light and you and I will be like the mixture of wine and sweet water, and I will stop my flow and afterwards I will be wrapped up in your blackness and that will have the color of black ink, but after your dissolution and my coagulation, when we have entered the house of love, my body will coagulate and I will be in my emptiness. [14] CW 14, page 516

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