O REI DO Show - Somos Todos Especiais

Atualizado: Mai 13


Cada um de nós é especial, e nenhum é igual ao outro”

P.T. Barnum https://youtu.be/PXrA0RUR6uk

O Rei do Show conta a trajetória de P.T. Barnum, o homem que criou o conceito de “show business”, e usando pela primeira vez o termo de “o maior espetáculo da terra”, que acompanha os circos desde então.

O filme mostra Barnum na infância, lidando com as dificuldades da pobreza, ao mesmo tempo em que sonha com uma vida de sucesso, como se a imaginação compensasse a dura realidade imposta pela miséria. Filho de um alfaiate que trabalhava para os ricos da época, se apaixona, ainda na infância, pela filha de um dos clientes de seu pai, que o humilha e lhe ordena que se afaste de sua filha.

A pobreza lhe proporcionava roupas e sapatos esfarrapados, além da fome. Barnum, ainda menino, tentava roubar comida, porém sem sucesso, já que era sempre pego, e o fruto de seu fracassado roubo, retirado de suas mãos. Desolado, é surpreendido por um gesto de caridade, de compaixão, vindo exatamente de uma “outsider”, uma mulher de aparência deformada, que lhe oferece uma maçã, que ele aceita,admirado. Esta seria a única pessoa a demonstrar-lhe compaixão, já que o pai era submisso às regras da burguesia, no intuito de preservar seu trabalho, única forma de sustento. A submissão do pai é tanta que ele não é capaz de proteger o filho, quando este recebe uma bofetada no rosto do pai de Charity, a punição é aceita como a única possibilidade, sem questionamentos.

Estas duas simples informações são cruciais para compreender a trajetória de Barnum: o pai, alfaiate, embora pertencendo a uma profissão desvalorizada pelo pai de Charity, exerce uma profissão em que o talento e a criatividade são cruciais para seu sucesso e valorização, mas também é um “criador” de persona para a burguesia, já que o bem vestir é uma forma de demonstrar valor e poder pessoais. O alfaiate faz isso pelos clientes, enquanto o próprio filho mal tem o que vestir ou comer. A mulher com deformidade que lhe dá a maçã deixa em seu imaginário, ou talvez até em sua memória, que os excluídos pela sociedade, como os pobres, doentes, exóticos, ou apenas diferentes também tem seu valor, sendo capazes de empatia e compaixão.

Se olharmos para a maçã como símbolo de tentação, como no caso de Adão e Eva, que foram expulsos do paraíso por terem cedido à tentação de comer o fruto proibido, uma nova consciência se torna possível, como se Barnum pudesse entender a partir daquele momento, mesmo que inconscientemente, que os valores da sociedade em que vivia poderiam não estar tão certos assim, já que a caridade e a compaixão vinham dos excluídos, enquanto a usura, o desrespeito e a humilhação advinha daqueles que supostamente eram superiores a ele. Um novo estado de consciência acaba de nascer neste pequeno gesto de ofertar a maçã a um garoto excluído e faminto.

Barnum trabalha duro durante anos, torna-se um adulto e voltar à sua cidade natal com pelo menos o mínimo de condições para se casar com Charity, que deixa a casa paterna para viver com Barnum, o amor de juventude com quem trocou cartas durante todo o tempo em que estudava num colégio interno, enquanto Barnum trabalhava para ganhar a vida.

Charity representa sua anima, a imagem idealizada do feminino, linda, rica, bem vestida e educada, que o valoriza e o segue pela vida.

Charity, apesar de ser seu nome, significa caridade, misericordia, graca, tolerancia, bondade, ajuda voluntaria, inclusive ajuda financeira, alem de bondade e tolerancia no julgamento dos outros.

Apesar das adversidades financeiras, são felizes, tem duas filhas, e elas sempre o apoiam. Ele tenta ficar rico e ter sucesso, talvez ele acredite que seja por ela, mas também é por ele próprio. Ele foi ferido e humilhado em sua infância, isto fica bem representado pela bofetada que levou do pai de Charity, ao faze-la rir e sujar seu lindo vestido com chá, na cena em que se conheceram. Charity não se importa com a condição social dele, ela se entrega ao amor incondicional e passa por cima das convenções para estar com ele, porém ele carrega o sentimento de ter sido humilhado e deseja revanche.

Ao perder o emprego, ele carrega consigo os documentos de propriedade da frota de navios que havia afundado, e usa estes documentos como garantia para conseguir um empréstimo e iniciar o próprio negócio. Ele age como um trickster, um trapaceiro, usando um documento sem nenhum valor legal para conseguir alcançar seu objetivo.

O elemento trickster de sua personalidade estava presente desde a infância, brincalhão, tentando fazer truques e graça, fantasiando uma vida de sucesso, em que seria um grande artista. Também está presente em sua tentativa de aplacar a fome roubando. O arquétipo do trickster o acompanha durante toda sua vida, atuando como trickster ele mesmo, e tendo como um de seus fiéis colaboradores um ladrão, que conheceu enquanto este tentava rouba-lo, e o contrata para trabalhar com ele. Em algumas cenas este ladrão tenta roubar as pessoas, sob a supervisão atenta de Barnum, que o impede com um simples gesto.

O arquétipo do trickster se apresenta em sua personalidade tanto na transgressão da lei e das normas sociais, mas também na transgressão criativa, que leva ao risco, ao riso, à diversão e ao entretenimento.

Trisckster também é o arquétipo do bufão, do deboche, da comunicação, do comediante, do rir de si mesmo, da relatividade da seriedade. O trickster é maleável, adaptável, fluido como mercúrio, seu elemento, amoldando-se de acordo com as situações que se apresentam, com isso, traz também uma grande capacidade de resiliência. Seu lado negativo está no desrespeito às leis, ao famoso “jeitinho brasileiro” de manipular as regras sociais e interpretá-las a seu bel prazer.

Ele tem a ideia de abrir um museu de curiosidades, horrores e esquisitices, que não obtém sucesso de público. Até que suas filhas dizem que seu museu precisa de algo “vivo”, já que ele só apresenta animais mortos, empalhados e coisas do gênero. Ele está aberto às sugestões da anima, agora também representada por suas duas filhas, além de Charity, sua mulher.

Pôde-se dizer que ele é um bom marido para Charity, e um bom pai para suas filhas, que são criativas, alegres e possuem uma grande capacidade de imaginação. Isto fica claro quando ele pergunta a elas o que elas desejam como presente. Uma deseja se casar com Papai Noel, numa fantasia de se casar com alguém que poderia lhe dar todo e qualquer presente, mas também um símbolo de bondade e recompensa pelo bom comportamento infantil. A outra filha pede sapatilhas de balé, um instrumento necessário para desenvolver seu desejo de ser bailarina, também seu lado criativo, porém mais pragmático do que sua irmã.

Seguindo os conselhos das meninas, Barnum começa a convidar para seu show todas as pessoas “exóticas” que pode encontrar, lembrando que a história se passa nos anos 1800, onde a questão da inclusão nem era sequer cogitada. Anões, pessoas obesas, muito altas, uma mulher barbada, um homem com o corpo todo tatuado, um albinos, gêmeos siameses, orientais, qualquer um que diferisse daquela determinada sociedade, da norma vigente. Quem era diferente era considerado uma aberração, sendo excluído da sociedade, além dos pobres, miseráveis, negros e índios, que não tinham nenhum valor, quanto mais representatividade cultural e social.

Estas eram as pessoas que não podiam e não deveriam se expor sob nenhuma circunstância, e são essas as pessoas que ele convida para montar um espetáculo. Estas pessoas que antes viviam escondidas, agora se tornam o centro das atenções, sob os holofotes do estrelato.

“Põe pessoas de todo tipo no palco com você, e as apresenta como iguais.” Paul Sparks como James Gordon Bennett, fundador e editor do New York Herald

O primeiro convidado para seu show e’ um anão, que havia passado sua vida escondido por sua própria mãe, que inclusive nega sua existência quando Barnum pergunta por ele em sua própria casa, seu argumento é para convence-lo e’ - “riram de você por toda a sua vida, só que agora vão pagar para te ver e rir de você”. Assim ele segue e contrata a mulher barbada, que canta divinamente, e se maravilha por sua voz. Pouco a pouco, ele vai encontrado o talento em cada um dos “outsiders”, um talento especial que os tornaria uma grande atração do show.

Só reconheço no outro aquilo que tenho em mim mesmo, apenas alguém criativo e talentoso é capaz de reconhecer isto e valorizar o talento alheio, e foi o que ele fez. Ao mesmo tempo em que ele busca por sucesso, fama, reconhecimento e dinheiro, ele transforma a vida destas pessoas, antes solitárias, desvalorizadas, e as coloca em evidência, dando-lhes a chance de terem orgulho de si mesmas e de elevarem suas autoestimas.

No entanto, ele “sofre” um sucesso. Jung dizia que nada era mais perigoso na vida de uma pessoa do que obter um grande sucesso ou reconhecimento, a pessoa correria o risco de se identificar com este momento efêmero e se tornar inflada, sentindo-se superior aos outros e mais capaz do que realmente se é.

Barnum quer ser respeitado pela classe mais alta, por isso tenta se associar a Phillip Carlyle, que vem a vivenciar uma situação parecida com a de Charity e Barnum, quando se apaixona pela trapezista do circo, pobre e negra, causando um escândalo em sua família, levando-o a perder sua herança.

Assim acontece com Barnum, ele alcança o sucesso, ganha muito dinheiro e compra a mansão vizinha à de seu sogro, o sentimento de inferioridade que sentiu durante toda a sua vida faz buscá-lo a aceitação (ou o amor) daqueles que antes o humilharam e desprezaram, e o faz automaticamente identificar-se com eles.

“Não precisa que o mundo todo ame você. Só algumas boas pessoas.”

Charity

Identificar-se com aqueles que se odeia ou se despreza é a grande armadilha da atuação da própria sombra. Quando projetamos nos outros aquilo que não reconhecemos em nós mesmos, isto volta pra nós. No caso de Barnum, o ódio que sentia pela burguesia, representada pelo pai de Charity, encobria uma inveja que ele nem sabia que sentia, mas que foi apontada por Charity, quando o questiona por ter comprado justamente uma casa na mesma rua da de seu pai.

Sua identificação com sua própria sombra fica ainda mais claro quando ele impede os artistas de seu show de assistirem a apresentação da cantora Jenny Lind de um lugar onde pudessem ser vistos no teatro, além de tentar impedi-los de entrar na recepção oferecida à cantora. Ele se envergonha da presença daqueles que ele próprio lutou para terem o direito de se apresentar.

Uma cena interessante para nossa análise acontece quando Barnum, maravilhado pela luxuosa e impecável apresentação de Jenny Lind, uma cantora ovacionada pelo público, diz que aquilo sim era real, que era isto que ele queria, algo real.

Neste momento fica claro que para ele, o mundo real, a vida real, dependia de aprovação e aceitação social, ou seja, de uma persona devidamente adequada de burguês. Ele parece identificar que o aspecto trickster de sua carreira como showman, e dos artistas de seu show, não eram reais, eram um embuste, como ele era reconhecido e tratado pelos jornais e pela sociedade em geral. Ele havia conseguido sucesso e dinheiro expondo os excluídos da sociedade, colocando em evidencia toda a “esquisitice” que pudesse encontrar, mas até o momento, ele próprio não via que o valor e a beleza do que estava fazendo era muito maior do que poderia imaginar. Ele estava, conscientemente, mostrando aquilo que ninguém queira ver, mas que tinha curiosidade, mas inconscientemente, estava expondo não a sombra dos excluídos, mas a sombra daqueles que causavam a exclusão, daqueles que não aceitavam o diferente. Ele expunha mais do que tudo a sombra de uma sociedade burguesa onde se vale pelo que se tem, por isso os constantes protestos na porta do teatro, as agressões aos artistas que ousavam sair às ruas e se expor fora do show, e o crítico, que no início não conseguia reconhecer o talento dos artistas excluídos pela cultura dominante.

Em paralelo a isso, ele se apaixona pela cantora Jenny Lind, ou melhor, fica fascinado por ela, ou talvez pelo efeito que ela cause nas pessoas, uma mulher linda, talentosa, admirada, que todos querem estar por perto, ou seja, sua anima mais uma vez foi projetada numa persona idealizada, e novamente negando sua própria, identificada com sua origem humilde. Porém desta vez, sua projeção de anima está contaminada pela sombra, pois a própria Jenny Lind se declara a ele como filha de uma união extra conjugal, sendo, ela também, discriminada pela sociedade em virtude de sua origem. No entanto, seu extraordinário talento e beleza encobriam este preconceito, que se mostrava veladamente agora, a nível de fofoca. Algo que acontece frequentemente em relação aos nossos artistas e pessoas que admiramos, é como se precisamos rebaixá-los, seja por sua origem humilde, que na cabeça de alguém preconceituoso, não lhes daria o direito de serem considerados especiais, ou seja pela inveja do talento e criatividade, qualidades tão valorizadas, mas consideradas privilégio da elite.

A fofoca também seria uma forma de torná-los mais humanos, já que a glorificação da arte e do artista geralmente cria uma identificação com o numinoso, ao mesmo tempo desejado, invejado e temido.

Quando um incêndio criminoso destrói o teatro, Barnum arrisca a própria vida para salvar Carlyle, que por sua vez, está arriscando a própria vida para salvar seu grande amor. Neste momento, Barnum está salvando não apenas Carlyle, mas também o símbolo do amor que não se deixa abater pelas barreiras sociais, representado pelo amor que Carlyle sente por Anne Wheeler, tanto quanto o que Charity sente por ele, um amor capaz de renunciar ao status e à fortuna, um amor sem persona.

Assim surge o circo de picadeiro, como alternativa ao show de teatro, na criatividade oriunda da falta de recursos financeiros, e pela união dos artistas de circo, que reconhecem em Barnum um talento que ele próprio não reconhecia nele mesmo, o talento de olhar para o outro sem preconceito, em busca do que o outro tem de melhor, o ouro escondido na lama. Os artistas do circo, e o próprio Carlyle reconhecem que além de sua ambição desmedida e necessidade de aceitação e ascensão social, ele havia transformado a vida das pessoas, iniciando um processo de inclusão social da maior importância, sob inúmeros protestos das pessoas ditas normais, mudando a mentalidade de uma sociedade de uma maneira que muitos nem se deram conta.

Este filme traz o ouro escondido na lama à tona, o talento e a criatividade foram cruciais para a transformação de todos, já que levaram à superação de inúmeras dificuldades, preconceitos, trazendo autoestima aos excluídos e rechaçados pela sociedade.

A predominância do arquétipo patriarcal é enorme em todo o filme. A mãe de Barnum não é citada, as mães de Charity e de Carlyle não tem voz ativa, nenhum poder para proteger seus filhos. A mae do General Tom Thumb, o anão, o esconde, respeitando as regras da sociedade patriarcal, que vão ao encontro do oposto do instinto materno, que e’ o de exibir e se orgulhar da prole. A lei implacável do pai dominador está presente sem questionamentos. Presente fisicamente ou não o arquétipo da Grande Mãe está reprimido, destinado a habitar a sombra de uma sociedade que ama condicionalmente, se é que ama.

Os aspectos de persona, sombra, anima/animus e o arquétipo do trickster são importantes para a compreensão da estória, porém o ver e o ser visto são o tempo todo o pano de fundo do enredo.

Charity é vista por Barnum de uma maneira que não era vista em sua casa. Em sua casa ela era moldada (posta num molde), educada e preparada para ser uma dama da sociedade que deveria aprender a se comportar como tal, sem direito à espontaneidade, e provavelmente à própria individualidade.

Barnum deveria ser invisível quando acompanhava seu pai no trabalho, mas faz graça, brinca e chama a atenção de Charity. Quantas vezes se espera que as crianças sejam “invisíveis”? e quando precisam acompanhar os pais em certos programas de adultos? Os dois se “veem” como são, duas crianças que brincam e se divertem apenas observando uma a outra, interagindo à distância, interagindo através da troca de olhares.

O primeiro artista do show é um anão, seduzido a participar do show com a promessa de se apresentar vestido com o uniforme de soldado da rainha. Barnum identificou sua fantasia através de um boneco encontrado no chão, ele sabia observar os detalhes e “ler” seu significado, e lhe deu a oportunidade de vivenciar seu sonho de grandeza no palco do show.

A mulher barbada foi “vista” primeiro pela voz, ou seja, quando ele ouviu sua voz já estava fascinado pelo seu talento, mesmo antes de vê-la.

Carlyle se apaixona por Anne Wheeler ao primeiro momento em que seus olhares se cruzam, literalmente de ponta cabeça, enquanto ela estava no trapézio. E de ponta cabeça se transforma sua vida, ao assumir seu amor em público, perdendo prestígio e riqueza.

O que os artistas do show queriam era sair da escuridão de não serem vistos e reconhecidos, nem que fosse para que o público risse deles. Algo pelo qual Barnum lutou a vida toda.

Ser visto e reconhecido é uma das primeiras necessidades humanas, e muitas vezes pode até se sobrepor à necessidade de alimento e segurança. Todos nós sabemos que ser ignorados, não “vistos” é uma das maiores punições que se pode sofrer ou infringir a outro ser humano. Especialmente crianças. Na podemos esquecer que todos os artistas do circo foram crianças que não podiam ser vistas, de quem os pais tinham vergonha, ou quem sabe foram abandonados à sua própria sorte, como ainda acontece nos dias de hoje. Quantas crianças com necessidades especiais ainda são abandonadas e rejeitas?

Nossa existência se reassegura através do reconhecimento do outro. Não existe humanidade sem a existência e reconhecimento de outro ser humano.

Não é à toa que a exposição nas redes sociais se tornou algo tão necessário. Ela não só complementa como atualiza esta nossa necessidade tão primordial.

Sou visto/reconhecido, logo existo.

O ser humano, apreciado com todo seu valor, é, sem dúvida, o maior espetáculo da terra.

Referências bibliográficas:

JAFFE, Aniela – “Jung’s Last Years and Other Essays”

JUNG, Carl Gustav – CW 9/1 “Archetypes and the Collective Unconscious”

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