Você Tem Pavio Curto? Entenda isto atraves da Teoria dos Complexos de Jung


Jung diz que nossas intenções conscientes e ações são frequentemente frustradas por processos inconscientes cuja existência é uma grande surpresa para nós. Cometemos pequenos deslizes ao falar e ao escrever, trocamos nomes e palavras, e fazemos coisas das quais não temos consciência, somos traídos por nossos mais bem guardados segredos, muitas vezes desconhecidos por nós mesmos. Jung diz que um complexo foi constelado, toda vez que uma ação ou discussão perde seu real proposito, já que um complexo ativado age de forma autônoma, isto é, o complexo age por nós, típico em situações de briga ou conflito das quais não nos lembramos do que dissemos (ofensivamente) ou fizemos (agressivamente), ficando surpresos quando outros se lembram ou comentam o fato, já que não nos reconhecemos na ação, nem o teor emocional negativo que conduziu o episódio.

Quem assiste alguém ser dominado por um complexo, não só não entende o que acontece, como não entende a reação que qualquer comentário feito a respeito pode desencadear. Todos nós já presenciamos este tipo de comportamento no transito, onde um simples erro ou descortesia do motorista ao lado desencadeia reações de fúria, muitas vezes colocando a vida de alguém em perigo. Outras vezes, o simples pedido para que alguém nos alcance a manteiga no café da manhã pode ser recebido como uma ofensa, como se estivéssemos roubando o direito do outro de usar a manteiga.

Complexo é um termo amplo, pois Jung se refere ao ego como complexo do ego, ou complexo egoico, ao se referir ao centro de nossa consciência e identidade pessoal. Para os exemplos que exponho aqui, me refiro ao que Jung chama de feeling-toned complex, que seriam os complexos chamados de neuróticos, os quais carregam uma carga emocional capaz de desencadear reações desproporcionais a situação real em que o indivíduo se encontra.

Os complexos podem ser de muitos tipos, mas hoje gostaria de me referir aqueles mais simples de se observar, mas que afetam a qualidade de vida de tantas pessoas.

Todos nós temos algum familiar ou conhecido que tem o que popularmente chamamos de pavio curto, alguém que ‘a menor provocação, visível ou não aos outros, reage de forma exagerada, totalmente desproporcional. Algumas vezes podemos presumir que os envolvidos em questão estão lidando com algum outro conflito que afetou a relação, este é o reconhecimento da sabedoria popular do que Jung chamou de complexo, e automaticamente passamos a evitar certos assuntos ou atitudes que possam desencadear tais reações não só descabidas, como muito desagradáveis. Quando reagimos a uma situação atual como se estivéssemos vivenciando uma situação passada, da qual temos consciência no momento ou não, estamos dominados por um complexo, em algumas situações estamos conscientes de termos sido movidos por algo “estranho”, em outras tentamos achar alguma justificativa “racional”, ou seja, uma defesa racional que justifique o fato.

O Complexo e' que nos tem

Jung afirma que um complexo nos tem, já que nos domina e nos leva a ter reações e a tomar decisões que em condições normais não seriam cabíveis. A sabedoria popular aconselha a não tomar decisões movidos pela emoção do momento, mas quando se está dominado por um complexo, parece ser muito difícil parar, e não há sabedoria popular ou sábio conselho que de jeito.

Imaginem uma sala cheia de fumaça, a fumaça atrapalha não só a visão, como também outros sentidos instintivos e sensoriais, como tato, olfato, paladar. Ficamos intoxicados por sua inalação, nossa respiração se torna deficiente, pois na falta oxigênio nossa capacidade de pensar com clareza é afetada. Vemos o que se passa através da cortina de fumaça, porém sem a nitidez necessária para que saibamos exatamente o que acontece naquela sala. O complexo age como se fosse uma cortina de fumaça, afetando nossa percepção da realidade, nossos sentidos, pensamentos e sentimentos são afetados por ela, comprometendo toda nossa ação. Não importa se a fumaça venha de um cigarro, charuto, incenso perfumado ou de um incêndio, o efeito é o mesmo. Somos afetados pela fumaça. Agora imaginem que esta fumaça é o complexo. É assim que vemos os fatos e as pessoas quando um complexo é ativado, somos intoxicados pelas substancias inaladas e exaladas pelos complexos, e deixamos de ser os agentes conscientes de nossa própria ação. Terrível, não é?

E agora? O que fazer?

Mas como lidar com isso, já que estamos inconscientes do que se passa conosco?

- Observando o que nos irrita, o que nos tira do sério, e as situações em que isso acontece. Isso me lembra alguma situação já vivida, alguém do meu passado? Ou será que me traz uma sensação, um sentimento, uma angustia, uma raiva, da qual não conheço a origem? Certamente, não é tarefa fácil fazer isto, muitas vezes é necessária a ajuda de uma psicoterapia, porem muitas vezes podemos refletir sozinhos a respeito, e tentar ouvir com atenção como as pessoas a nossa volta se sentem com nossa conduta exagerada, já que alguém possuído por um complexo costuma trazer muitos dissabores a quem está ao seu redor.

Como se forma um Complexo carregado de emocao ?

Complexos são carregados de emoções negativas, sentimentos de inadequação, de desamor e desamparo, muitas vezes causados por traumas profundos ou abandonos significativos. Outras vezes podem ser causados por uma sucessão de pequenos traumas, que vão sendo relevados ao longo da vida como de menor importância, mas que vão se acumulando como uma torneira gotejando num copo, uma hora, mesmo que demore, vai transbordar. Porem antes do copo transbordar há o barulho do gotejo, que vai elevando o nível de tensão e angustia, anunciando o transbordamento próximo. Identificar este sinal pode evitar a necessidade de uma reação exagerada, pois há sempre a possibilidade de parar o gotejo, ou seja, de desvincular um determinado ato corriqueiro de um trauma do passado.

Imaginem que esta pessoa que se irritou ao lhe pedirem que lhe passassem a manteiga tenha crescido em uma família com serias dificuldades financeiras, onde a manteiga era artigo de luxo, permitida apenas ao seu irmão mais velho, que era o filho favorito de sua mãe. Sua mãe, ao ver que a manteiga estava perto dele, rapidamente ordenava que ele passasse a manteiga para se irmão.

As vezes a manteiga não é uma simples manteiga, e sim o gatilho que dispara lembranças, emoções, fantasias, pensamentos e imagens, enfim, o resumo de uma vida inteira de rejeição e de desvalorização que uma pessoa pode ter sofrido na vida.

E voce? Qual é a sua manteiga? Qual é o seu gatilho?

Referências Bibliográficas:

“A Review of Complex Theory”, CW 8 – The Structure and Dynamic of the Psyche

“Memories, Dreams, Reflections” – C. G. Jung

“Experimental Researches” – CW 2

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