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A Baleia - A compulsão e suas complexidades


Sinopse

Charlie (Brendan Fraser) é um professor de inglês recluso, que vive com obesidade severa e luta contra um transtorno de compulsão alimentar. Ele dá aulas online, mas sempre deixa a webcam desligada, com medo de sua aparência. Apesar de viver sozinho, ele é cuidado pela sua amiga e enfermeira, Liz (Hong Chau). Mesmo assim, ele é sozinho, convivendo diariamente apenas com a culpa, por ter abandonado Ellie (Sadie Sink), sua filha hoje adolescente que ele deixou junto com a mãe Mary (Samantha Morton), ao se apaixonar por um homem. Alan, seu companheiro, se suicida, deixando Charlie devastado com a perda. Agora, ele irá buscar se reconectar com a filha adolescente e reparar seus erros do passado. Para isso, ele pede para que Ellie vá visitá-lo sem avisar sua mãe e ela aceita, com o única condição de que ele a ajuda a reescrever uma redação para a escola. A trama é permeada pela visita de Thomas (Ty Simpkins), um jovem missionário que foge de sua própria história, e traz à tona a culpa e conflito religioso que levaram Allan ao suicídio.

Embora A Baleia foque na obesidade mórbida de Charlie, eu gostaria de abordar outros aspectos da trama, como o luto pela perda do ser amado, a culpa vivida pelo abandono da família para se viver um grande amor, o preconceito contra a obesidade, relacionamentos homoafetivos, alienação parental, vergonha, rejeição social, ideologias religiosas, entre outros.

No caso de Charlie vemos a compulsão alimentar como sintoma psicossomático expressando sua dor psíquica, mas poderia ser a adição a substâncias como cocaína, álcool, jogos, etc. A compulsão alimentar é indiscutivelmente visível no caso de Charlie, enquanto outras compulsões podem ser mais facilmente escondidas, pois seus efeitos muitas vezes são mais difíceis de detectar, ou mais socialmente aceitos em nossa sociedade. Por vivermos um momento sociocultural em que a ditadura dos padrões de estética e comportamento dito saudável estar em evidência, a licença poética de usar um personagem com obesidade mórbida traz a questão das adições à tona de maneira indelével.

Os distúrbios alimentares são difíceis de se tratar, pois não é possível evitar o primeiro gole como no caso do álcool, nem a primeira dose de qualquer outra substância, é preciso aprender a comer respeitando as necessidades do próprio corpo, fato cada vez mais raro, pois as pessoas parecem não ser mais capazes de se alimentar natural e instintivamente, seguindo dietas e conselhos nutricionais cada vez mais impositivos, tanto quanto a demanda por um corpo atlético e instagramável.

O cenário parece representar o próprio Charlie, escuro, fechado, opressor, uma alma presa num corpo deficiente e praticamente imóvel por causa do excesso de peso. Charlie sofre as consequências dos excessos alimentares e sua consequente obesidade, como pressão alta e insuficiência cardíaca. Por mais que haja defensores contra a gordofobia, é fato que a obesidade é um fator de risco para a saúde, e uma importante questão de saúde pública.

O luto de Charlie pela perda dramática de Alan é pano de fundo para uma depressão acentuada, e razão do vínculo entre ele e Liz, irmã de Alan, seu companheiro. Alan esteve deprimido antes do suicídio, enfrentando uma crise existencial gerada pela sua formação religiosa rígida, em que a homo afetividade era considerada um crime contra o espírito e contra Deus. Alan não suporta viver em pecado, se atira de uma ponte, e a Charlie nem é permitido ir reconhecer o corpo, pois sua relação não era reconhecida socialmente.

O filme trata de questões pertinentes às relações homoafetivas e aos direitos de união afetiva nas relações LGBTQA+, que embora alguns avanços importantes já terem sido alcançados, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Situação semelhante pode ser observada em relações hetero afetivas, onde deixar a família e filhos para viver um grande amor sofre críticas e retaliações semelhantes, incluindo a alienação parental, que apresenta tanto características explícitas quanto veladas, seja pela punição financeira ou limitação da convivência de acordo com o valor em dinheiro dedicado à família inicial. A família subsequente pode ficar na clandestinidade social, inclusive sem obter direitos legais, como casamento ou união estável, e acesso aos benefícios sociais pertinentes a cada situação social e profissional.

Charlie acumula todas as culpas, a de abandonar a filha, a de não ter sido suficiente para Alan querer viver, a de não conseguir controlar sua compulsão. Toda a agressividade de Charlie se volta contra ele próprio, ao mesmo tempo em que projeta nos outros a bondade e doçura que vemos em seu comportamento sempre amável, sempre gentil. Charlie se desculpa o tempo todo, não se sente no direito de existir, e caminha para a própria morte, num comportamento autodestrutivo que abala o público e as pessoas ao seu redor.

O que seria mais difícil para nós ao olharmos para Charlie? Seu corpo deformado e deficiente devido à obesidade mórbida, sua maneira grotesca de se alimentar, característica de todo tipo de adição, em que o vício é mais importante do que todo o resto? Penso que a agressividade voltada contra ele próprio seja um gatilho inconsciente para a rejeição que ele desperta, uma capacidade de destruição, que captamos inconscientemente, a qual tememos entrar em contato em relação a nós mesmos.

A repulsa por sua imagem seria a repulsa simbólica à sua culpa, agressividade autocentrada, e, por que não, à projeção positiva de sua sombra, pois sua docilidade, afeto e companheirismo são vivenciados de maneira sombria, projetada nos outros, numa fantasia gerada pela culpa de que qualquer pessoa seria melhor e mais capaz do que ele. Charlie tem o dom de ver o melhor nas pessoas, e Ellie tem o dom de detectar a sombra, tanto dos autores que lê, quanto de Thomas, que desperta sua desconfiança, pois ela reconhece em Thomas a transgressão e o conflito que permeiam sua história.

Embora a crítica considere que a presença de Thomas e de sua história paralela desnecessária para a trama, considero que esse personagem é crucial, pois sua ingenuidade e vontade de querer salvar a alma de Charlie, mesmo que de maneira automatizada por suas questões religiosas, o relacionamento Thomas e os demais personagens revela as nuances do caráter de cada um dos personagens. Liz mostra sua agressividade e revolta em relação às questões religiosas que afetaram sua vida e levaram seu irmão ao suicídio, Charlie confronta as passagens bíblicas ao falar de amor, e indiretamente questiona uma divindade que pune o amor, ao condenar os prazeres da carne, escancarando a punição ao seu próprio corpo, numa clara dissociação entre psique e matéria, em que o corpo seria o algoz que impede a psique, ou a alma, de ascender aos céus e a Deus, trazendo uma simbologia à compulsão alimentar, em que o corpo, e a sexualidade, principalmente a homossexualidade, no caso, seriam um impeditivo à vida espiritual e plenitude da vida psíquica.

O próprio Thomas transgride, roubando o dinheiro da igreja para seguir com um trabalho de missionário que considera mais legítimo e profundo do que o missionário Jeff demandava dele. O próprio Thomas sofre as consequências e punições de sua adição à maconha, que é minimizada à principio por Ellie, mas que ele enfatiza que dominava toda sua vida, e que sim, era uma adição, confrontando a aceitação popular de que fumar maconha não faz mal nenhum, enquanto vários pacientes têm suas vidas paralisadas pela inércia e apatia ocasionadas pelos excessos do uso dessa substância. Aliás, o próprio cinema costuma romantizar o uso de substâncias como álcool, cocaína, e medicamentos controlados.

Seriam os medicamentos utilizados para emagrecer adição dos tempos atuais, atenuada sob a fachada dos cuidados com a saúde e a aparência, adequando os indivíduos aos padrões estéticos estabelecidos? No que o uso de medicamentos para emagrecer, (mesmo que na forma de efeito colateral) dormir, acordar, ganhar massa muscular, etc., seriam diferentes?

Vivemos em uma sociedade em que a separação mente e corpo chegou a consequências drásticas. Ao invés de ouvirmos nosso corpo para entendermos as necessidades de alimento, movimento, repouso, tratamos nossos corpos como maquinas de eficiência, ou apenas nos esquecemos que somos indivíduos que não existem sem o corpo físico, e que esse corpo físico não está a serviço de nossas mentes, mas forma uma unidade com nossa psique. O corpo expressa os simbolismos psíquicos, e a psique se expressa através do corpo, um não existe sem o outro. Não é possível evoluirmos psíquica ou espiritualmente através da subjugação do corpo, assim como não existe possibilidade de vida com a aniquilação do planeta.

Charlie sabe que vai morrer, e tenta resgatar o relacionamento com a filha. Apesar da culpa em ter abandonado a filha, vemos que Charlie foi impedido de conviver com a filha pela sua ex-mulher, que se sentia envergonhada e humilhada por ter sido trocada por um homem. Mary é usuária de álcool e de tranquilizantes, tanto Mary, quanto Charlie, usam a adição como forma de lidar com o sofrimento, ou ao menos de anestesia-lo. Ellie tem problemas de relacionamento, sendo acusada de ser má por sua própria mãe, mas Charlie projeta inúmeras qualidades na filha, e se apega a uma redação que Ellie havia escrito há quatro anos atrás, em que fala sobre o romance Moby Dick , cuja baleia dá nome ao filme. Baleia é um apelido constrangedor dado aos indivíduos obesos, comparados ao animal de grande porte.

Charlie é fascinado pela escrita de Ellie, que considera excepcional. Na redação, Ellie fala da descrição da baleia como uma forma do autor se defender de seu próprio vazio, e da fantasia de que matar a baleia seria a solução da vida do personagem. Ellie tem um talento para identificar as defesas psíquicas do autor da obra, e denuncia, de forma nua e crua a ineficácia da ação em relação ao estado emocional do autor. Ela vê além da licença poética da obra, desvendando a alma do autor através de seus personagens e narrativas, e é isso que fascina Charlie, a capacidade que sua filha tem de enxergar o outro além da persona, e talvez essa seja sua fantasia de que um resgate da relação entre os dois seja possível.

Charlie sacrifica a própria saúde para salvar dinheiro para Ellie, e seu egoísmo e agressividade em relação à Liz é a única evidente em toda a história. Liz cuida dele e de sua incapacidade física, trazendo alimento e controlando seus sinais vitais, e se sente traída ao saber que Charlie tinha dinheiro guardado para Ellie, enquanto ela teve que caminhar na neve para levar suprimentos para ele quando seu carro estava quebrado. A relação entre Liz e Charlie é cheia de momentos agressivos e passivo agressivos. Ao mesmo tempo em que ela cuida de Charlie, critica sua maneira de se alimentar, fato comum na convivência com pessoas portadoras de compulsões de qualquer tipo, e ainda mais acentuada nas compulsões socialmente visíveis, como por comida e álcool, embora o alcoolismo dito social ainda seja muito mais amenizado aos olhos da sociedade.

Ellie, por sua vez, descarrega toda sua agressividade em Charlie, despeja toda sua magoa e ressentimento, que ele aceita sem questionar. Ele aceita a agressividade dela da mesma forma que aceita todo tipo de agressividade e rejeição que recebe, a qual se sente merecedor. Pacientes adictos consideram-se merecedores da rejeição e desprezo dos outros, pois eles próprios rejeitam e desprezam sua adição, considerada como falta de caráter, e não como manifestação simbólica de seu sofrimento.

A redação de Ellie é um dos protagonistas da trama, e parece representar a possibilidade de vínculo entre Charlie e Ellie, pois é através da literatura, e da proposta de reescrever as redações dela para a escola que eles retomam uma relação conturbada e cheia de mágoas e questionamentos de uma filha que se viu abandonada pelo pai. Charlie usa a redação quase como um mantra de bem-estar, é a leitura da redação por Thomas que o acalma e o tira de uma crise. A redação representa o vínculo perdido com a filha, e a única forma de conhece-la a que ele tem acesso durante os últimos anos.



A redação de Ellie

'No incrível livro Moby Dick, o autor conta sua história estando no mar. Na primeira parte, o autor está numa pequena cidade (...) Ahab não tem uma perna (...) No decorrer do livro, toda sua vida gira em torno de matar a baleia como vingança. Eu acho isso triste porque a baleia não tem sentimentos. E ele quer matar. Um pobre e enorme animal (...) quando li os capítulos chatos que eram só descrições das baleias. Porque eu sabia que o autor estava tentando nos poupar de sua própria história triste (...) me sinto mal pelo Ahab também. Porque ele acha que sua vida será melhor se ele matar a baleia. Mas na verdade isso não vai ajudar em nada (...) Fiquei triste com o livro e senti emoções fortes. Só por um momento, esse livro me fez pensar na minha própria vida. E então me fez sentir feliz por ela'.

Ao olharmos simbolicamente para o texto de Ellie, podemos compreender melhor quem é Ellie, e porque Charlie se sente tão unido a ela por esse texto. O personagem Ahab foi amputado pela Baleia, e busca vingança, tentando matar a Baleia, fazendo disso a razão de sua existência. O mar seria o estado de inconsciência que permeia a relação dos dois, pois Charlie só tem notícias sobre Ellie através de Mary, que proibiu o contato dela com o pai após a separação deles e união de Charlie com Allan. Ahab teve uma perna amputada pela Baleia, assim como Charlie e Ellie tiveram o relacionamento pai e filha amputado pela separação imposta a eles, os dois tonam-se deficientes em sua relação com a realidade, representada pela ausência de uma das pernas, que causa perda de equilíbrio, dificuldades de locomoção, e uma deficiência física visível aos olhos de todos. Charlie vive sua amputação psíquica simbólica através de sua mobilidade reduzida devido à obesidade mórbida, que dificulta sua relação com o mundo exterior, deixando-o confinado em seu apartamento. Ellie sente a separação do pai como uma amputação afetiva, que a torna agressiva, e vingativa, como Ahab. As fantasias de vingança são uma tentativa equivocada de reparação, que jamais virá, pois, toda reparação necessita de afeto e empatia, enquanto a vingança só traz mais afastamento e aguça o sentimento de solidão e isolamento.

Matar Moby Dick não devolveria a perna de Ahab, assim como matar simbolicamente o pai que a deixou aleijada emocionalmente pela sua ausência não restauraria o equilíbrio emocional de Ellie. Ao demonstrar empatia tanto pela Baleia, quanto por Ahab, Ellie demonstra potencial para compreender os dois lados da moeda, embora, de acordo com sua interpretação, a Baleia, representada por Charlie, não tem sentimentos, age apenas por instinto. O amor entre Charlie e Allan é interpretado tanto por Ellie, quanto por Thomas, como uma manifestação dos desejos da carne, do instinto primitivo, e não como uma relação afetiva entre dois homens.

Os capítulos chatos, que eram só descrições das baleias podem ser vistos como as defesas superficiais, que criam justificativas socioculturais para explicar as coisas, como os representantes da religião de Allan e Thomas, que se utilizam de passagens bíblicas para culpabilizar o que consideram pecado, no caso, tanto do sexo quanto da gula, pois não podemos nos esquecer de que a gula é um dos sete pecados capitais. É dessa forma que Ellie desconstrói os argumentos de Thomas, tratando-os como mecanismos de defesa que escondem suas verdadeiras razões e sentimentos. Ellie parece ter se especializado em confrontar hipocrisias, complementando dialeticamente a dificuldade que seu pai e sua mãe tiveram de confrontar as normas sociais vigentes e encontrarem uma forma criativa de lidar com a dor da separação e do abandono. O livro faz com que Ellie pense sobre a própria vida, e considero que as artes e a literatura possuem esse caráter numinoso, de nos colocarem em contato com a nossa própria essência.

Charlie reconhece o potencial humano da filha através dessa redação, feita por alguém ainda tão jovem, e tão capaz de enxergar além das aparências. Se pensarmos em todas as camadas de gordura de Charlie como uma defesa psicossomática, e física, pois como ele disse para Liz, quando ela a ameaça de furá-lo com uma faca, a faca precisaria ultrapassar sessenta centímetros de gordura antes de atingir seus órgãos vitais, ou seja, a gordura seria uma espécie de armadura orgânica, que impediria que agressões externas o ferissem.

O relacionamento entre Mary e Charlie demonstra ao mesmo tempo todo o ressentimento dela por ter sido abandonada, a vergonha por ter sido trocada por um homem, que agravou sua dor e a fez se sentir humilhada, como também o ressentimento de Charlie, por ter sido afastado da filha, sendo punido por sua escolha amorosa através da proibição de conviver com a filha. Também observamos resquícios de um carinho vivenciado pelos dois, memórias dos bons e maus momentos. Uma das memórias de Mary é em relação a Charlie como bom cozinheiro, também uma mágoa de Ellie, ao observar que Charlie havia cozinhado o melhor dos steaks apenas quando Allan havia sido convidado para jantar, numa ocasião em que Mary estava ausente, numa referência de que Charlie guardava o seu melhor para Allan, deixando Ellie enciumada.

Charlie já havia tido uma relação mais saudável com a comida, era um cozinheiro habilidoso, capaz de preparar refeições especiais que agradavam a todos, mas que agora só se alimenta de comidas prontas ou industrializadas. O prazer de preparar as próprias refeições e compartilhar a companhia à mesa com entes queridos foi substituída pela alimentação compulsiva e solitária, em que o alimento parece preencher um vazio avassalador. O que caracteriza a compulsão não é apenas o ganho de peso, mas sim o ritual implícito na alimentação. Na compulsão, comer é um ao impulsivo, desesperado, em que a qualidade do alimento, quantidade e prazer não estão presentes, por isso observar um indivíduo com compulsão alimentar comendo é tão desconfortável para os outros, pois é como se observássemos uma situação antinatural, ou seja, comer para se punir ao invés de se alimentar, comer para preencher os espaços vazios da solidão da alma, não para nutrir o corpo. Isso é semelhante ao beber para brindar ou apreciar a harmonização de um prato com a bebida, ou beber até ficar inconsciente e vomitar até desmaiar.

Apesar de Thomas não pertencer ao núcleo afetivo principal de Charlie, ele aparece munido de um propósito de fazer diferença na vida de Charlie. Sua ingenuidade e vontade de ajudar, mesmo que de maneira equivocada perante a todos, traz a reflexão sobre os comportamentos sociais que são repetidos automaticamente, sem uma reflexão profunda.

Thomas, mesmo sem estar totalmente consciente disso, questiona a própria fé. Ao roubar o dinheiro da missão para poder exercer seu papel de missionário de uma maneira mais condizente com seu sentimento de empatia e amor ao próximo, e de suas fantasias pueris de salvar as pessoas. De qualquer maneira, mesmo sem compreender, ele atende à demanda de Charlie de ler a redação de Ellie em voz alta, e demostra uma tendencia a obedecer sem questionar, ficando à mercê de Liz e Ellie, que o mandam sair, ficar, sentar-se, etc.

Thomas representa a passividade de Charlie e das convenções sociais às quais obedecemos cegamente. Sua revolta é sombria, como geralmente ocorre com os adolescentes, que questionam a vida através de atitudes transgressivas, mais do que pela clareza de seus argumentos. Tanto Charlie quanto Thomas confiam nas pessoas e na natureza humana. Thomas acredita na religião e na sua presença para ajudar as pessoas, Charlie acredita que a educação e a escrita são uma forma de realização pessoal e profissional.

O Pássaro

O filme tem suas cenas anunciadas de acordo com os dias da semana, como se fosse um diário da vida de Charlie. Dia após dia, Charlie coloca frutas picadas para que um pássaro venha se alimentar em sua janela. Sua morte parece marcada pelo dia em que o prato que alimentava o pássaro se quebra, como se sua alma já não comparecesse mais em sua janela. A delicadeza com que Charlie alimenta o pássaro contrasta com a brutalidade com que alimenta a si próprio. A delicadeza e fragilidade de Charlie estão representadas no pássaro, a vida psíquica cultivada dia após dia, onde sua sensibilidade é alimentada e confrontada pelo amor à literatura e à beleza da vida projetada em outras vidas que não a dele.

Você já teve a sensação de que as pessoas são incapazes de não se importar?

Charlie enxerga a capacidade de empatia das pessoas, como do entregador de pizza, que parece preocupado, ou curioso, a respeito do misterioso cliente que nunca aparece para pegar suas pizzas. As pessoas precisam de intimidade, de familiaridade uns com os outros, e mesmo um entregador habitual sente que seria natural que reconhecessem a existência um do outro. Para Charlie, só a comida interessa, e parece surpreso quando ele se apresenta, mesmo atrás da porta. Charlie vê o mundo através das cortinas fechadas, ou semiabertas de seu apartamento, ou quando a porta se abre para alguém entrar, trazendo uma luz ofuscante, já que ele só vai até a porta para buscar sua comida que havia sido entregue. Ele não se mostra por vergonha de sua aparência, mantendo a câmera de seu computador desligada durante suas aulas online.

Certa vez, um paciente com obesidade mórbida disse que não importava que tipo de pessoa ele fosse, nem seu caráter, educação ou interesses, pois sua aparência era uma barreira intransponível, que impedia as pessoas de se aproximarem o suficiente para saber se ele era uma pessoa interessante para se relacionar. A obesidade mórbida é, ao mesmo tempo, uma redoma que isola o indivíduo dos outros, ao mesmo tempo que protege das interações sociais, é sentida como causadora da rejeição. A autoestima rebaixada funciona como espinhos que mantem os outros à distância, como forma de confirmar que não se é digno de afeto. Obviamente essa ferida traumática foi causada por outras formas de rejeição primordial, cujo trauma é constantemente atualizado.

Charlie mantém um comportamento autodestrutivo por vários anos, com o argumento de que não iria tratar de sua saúde porque todo o dinheiro que ganha com suas aulas iriam para o futuro de Ellie. O que me parece mais assustador é que tanto Mary, quanto Ellie, acham isso natural. Apenas Liz reage a isso, tanto por se sentir rejeitada ao saber que Charlie teria dinheiro para se cuidar, e que todo o esforço que ela faz para cuidar dele poderia ser eficaz, caso ele colaborasse, aceitando ajuda médica, e percebe que sua doação a ele não era tão importante quanto fazer dinheiro para deixar para a filha.

Nos casos de separação, principalmente, o dinheiro entra como moeda afetiva, uma compensação pelo abandono, mesmo que a separação dos pais não implique, de fato, em abandono emocional ou financeiro dos filhos. A sociedade patriarcal considera que o papel do pai é prover bens materiais, e toda e qualquer compensação afetiva deve se concretizar em compensação material. Esse complexo parece atingir o triangulo familiar formado por Charlie, Mary e Ellie. Pais de família que trabalham até a exaustão, ou até mesmo a morte, são vistos de forma romantizadas como heróis, mas penso que estão mais próximos de serem considerados como mártires de uma sociedade que invalida a capacidade de amor e de comprometimento afetivo dos homens.

Não podemos esquecer da redação de Ellie, que diz que as baleias não têm sentimentos. São apenas animais enormes e sem sentimentos. As baleias cachalote eram mortas para que se extraísse seu óleo. Charlie sacrifica sua vida para que seu óleo/sangue/dinheiro fiquem com Ellie, tudo isso com o consentimento e aprovação de Mary. Podemos dizer que Charlie atribui um valor nobre a seu sacrifício, enquanto esconde em seu corpo as marcas da depressão e da dor do abandono causado pelo suicídio de Allan. A morte por suicídio causa uma ferida terrível em que fica, pois, escolher a morte ao invés da companhia de quem se ama é mais doloroso ainda do que ser deixado por um outro amor. O suicídio é um ato solitário que exclui todos os demais, deixando a todos com um terrível sentimento de abandono. Por outro lado, o suicídio de homossexuais tem sido incentivado por falas como – prefiro um filho morto a um filho gay. Portanto a sociedade patriarcal tóxica considera o suicídio de homossexuais praticamente como uma saída honrosa para a vergonha, como o é para muitos homens que sentiram envergonhados por não conseguirem sustentar suas famílias ou por terem sido flagrados em situações ilícitas. O suicídio pela honra ou vergonha foi incentivado pelas sociedades patriarcais por muitos anos.

Como podemos ver, a comparação de Charlie com a Baleia Moby Dick, e analise de seu sofrimento, vai muito além das questões gordo fóbicas e da compulsão alimentar. Passa pelas questões homofóbicas, religiosas, pelos papeis sociais de casamento e parentalidade, alienação parental, além da dor do abandono, fantasias de vingança, valores como a honra, boa aparência e sucesso financeiro, e pelo papel masculino de provedor e os sacrifícios como prova de afeto ou de redenção. Mesmo que o preço seja pago com a própria a vida.


Referências bibliográficas

1 MEVILLE, H. Moby Dick. [S.l.]: Editora Antofágica.

2 VON FRANZ, M.-L. Archetypal Patterns in Fairy Tales. ISBN 9780919123779. ed. [S.l.]: Inner City Books, 1997.

3 WOODMAN, M. O vício da perfeição: compreendendo a relaçao entre distúrbios alimentares e desenvolvimento psíquico. [S.l.]: Summus Editorial .



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