Vidro – Análise Psicológica do Filme

Atualizado: Mai 13


Terceiro Filme da Trilogia de M. Night Shyamalan

Corpo Fechado – Fragmentado – Vidro

O filme Vidro é o terceiro da trilogia de M. Night Shyamalan. Corpo Fechado e Fragmentado foram analisados psicologicamente e suas análises estão disponíveis em meu website, e seus respectivos links estão disponíveis após este texto.

Vidro conta a história de Elijah Price, brilhantemente interpretado por Samuel L. Jackson. Elijah tem uma doença chamada osteogênese imperfeita do tipo I, uma doença genética que faz com que seus ossos se quebrem como se fossem de vidro, fato que originou seu apelido na escola.

Elijah nasce com vários ossos quebrados, traumatismo causado pelo parto. Podemos dizer que Elijah foi uma criança traumatizada por sua condição física, frágil e delicada, cujos recorrentes traumas causados pela fragilidade de seus ossos moldaram sua personalidade. Elijah e’ o filho amado de uma mãe dedicada, porem com um pai ausente, ao qual não há nenhuma referência durante a história.

Elijah e’ incentivado pela mãe a passar algum tempo fora de casa, ao ar livre, através de um desafio: toda vez que estivesse disposto a atravessar a rua e ir ao parque em frente de casa, uma história em quadrinhos estaria `a sua espera. Assim, Elijah se torna um grande conhecedor de histórias em quadrinhos, se tornando dono de uma galeria de arte especializada na área.

Elijah conhece o mundo através dos quadrinhos, seu refúgio e alento, onde vive num mundo paralelo habitado por vilões e heróis, e sua filosofia de vida e’ pautada na complementariedade dos opostos, acreditando que para cada deficiência deveria existir uma capacidade extraordinária compensatória. Desta forma, acredita que deveria existir um oposto para ele próprio, que se quebrava com facilidade, e acaba por encontrar David Dunn, interpretado por Bruce Willis, também em Corpo Fechado.

Sua obsessão em encontrar alguém que seja seu oposto o torna um assassino em massa, causando vários acidentes, entre eles aéreos, ferroviários e outros, com o objetivo de encontrar alguém que não se quebrasse como ele, o que acontecia com David Dunn, único sobrevivente de um acidente de trem.

Elijah buscava por super-heróis tais quais os dos quadrinhos que lia, enquanto se afirmava como super vilão, o contraponto necessário a todo herói. Todo símbolo tem seus opostos complementares, e esta e’ a visão de mundo de Elijah Price.

Ao final de Corpo Fechado, Elijah e’ preso num manicômio judiciário, onde o encontramos em Vidro.

Neste terceiro filme da trilogia vemos David Dunn vivendo uma vida dupla, como os super-heróis dos quadrinhos, com um trabalho de fachada, numa empresa de segurança, tendo seu filho como colaborador, nos mesmos moldes de Batman e seu mordomo Alfred.

David tem a capacidade de, intuitivamente, detectar um criminoso, tendo visões sobre seus crimes e/ou vítimas. Num de seus passeios em busca de criminosos, se depara com Hedwig, uma das personalidades de Kevin (interpretado por James McAvoy), personagem do filme Fragmentado, segundo da trilogia, que tem Transtorno de Dissociação de Personalidade, em que a personalidade chamada de “A Besta” mantem aprisionado um grupo de Cheer leaders.

A cena e’ uma armadilha para capturar Dunn e A Besta, e ambos são levados para o mesmo manicômio judiciário onde esta Elijah.

"Se super-heróis existem, por que só há 3 de vocês?" - Dra. Ellie Staple

Este filme traz a presença de uma psiquiatra especializada em doentes que acreditam ter superpoderes, que tenta de todas as maneiras convencê-los de que nada do que fazem e’ especial de fato, e de que tudo pode ser explicado pela ciência. Ela tenta reduzi-los ao banal, tentando provar que todos os feitos extraordinários que realizaram têm uma explicação no treino e dedicação que tiveram para atingir seus grandes feitos.

Vemos aqui o papel da psicologia e da psiquiatria na tentativa de nivelar o extraordinário ao nível da normalidade, sendo que a normalidade almejada passa pelo ajustamento dentro da mediocridade, onde características e dons especiais, como a inteligência (Elijah), força, intuição e empatia (David), força, inteligência, criatividade, superação, flexibilidade de comportamento e capacidade de aprender sobre diversos assuntos, além do controle de suas funções vitais e metabólicas (Kevin) são desqualificadas como fantasiosos, inadequados e desadaptados.

O manicômio judiciário traz uma crítica contumaz ‘as relações de abuso de poder entre médicos e a equipe de enfermagem e os pacientes. Entre os abusos podemos descrever o da psiquiatra, que tenta desqualificar as experiencias de seus pacientes, negando que eles, de fato, realizaram coisas extraordinárias, mesmo que elas poderiam ser parte de um comportamento neurótico ou coisa do gênero. O enfermeiro Daryl ameaça deixar cair objetos pesados no frágil corpo de Elijah, dizendo que a presença da nova psiquiatra iria afetar seu “bom relacionamento”, insinuando que seus métodos de abuso físico e emocional poderiam vir a sofrer represália. Esta cena insinua que abusos foram cometidos de forma recorrente no passado.

Entre as falas da psiquiatra estão afirmações de que “A Besta” não existe, e de que haveria explicações para sua força e desempenho, reduzindo sua performance a algo aprendido em vídeos de escaladores, muita prática e dedicação, como se isto fosse algo menor. Ela tenta implantar a dúvida em Patrícia, de que eles, a Horda, não seriam especiais. Alguém conhece uma maneira melhor de minar a autoconfiança e a autoestima de alguém do que afirmar que este alguém não e’ especial? Implantar a dúvida não deixa de ser uma maneira de tortura psicológica.

A jornada heroica de David e’ tratada como uma desordem possivelmente neurológica, ou seja, a jornada do herói, característica do processo de individuação, e’ vista como patológica. A extraordinária intuição de David e’ considerada fruto de um treino em interpretar centenas de sugestões em uma fracção de segundo, como se isto fosse banal. Ao tentar desqualificar a intuição de David, ela desqualifica o motivo principal de seu comportamento heroico, a detecção do mal e de malfeitores.

Tudo que é extraordinário pode ser explicado, e ainda assim, ser verdade. Elijah Price

Elijah não se deixa convencer pela fala de Ellie, sua fraqueza está em seus ossos, não em sua mente. Ele e’ obstinado em provar a existência dos super-heróis e de seus poderes extraordinários, pois esta e’ a única maneira de provar seu superpoder de ser um supervilão. Sua condição física não o coloca em condições de ser um super herói, afinal, os super heróis tradicionais tem capacidades físicas especiais, talvez Elijah tivesse se beneficiado com a leitura de contos de fadas e de mitologia, onde a jornada do herói implica muitas vezes em sabedoria, inteligência, humildade, empatia e varias formas de sagacidade, porem seu mundo ficou reduzido aos heróis cuja forca física seria o maior atributo, ainda que complementar. Sua deficiência física o deixou focado em seu polo oposto, o poder físico extraordinário, tornando-o cego para outras possibilidades de destaque, como sua própria inteligência avantajada. Seu objetivo era encontrar estes heróis, porem tornando-o no seu oposto, o vilão frio e calculista, assassino de centenas de pessoas. Sua inteligência, seu dom maior, desenvolveu-se de maneira extrema, criativa, porem destrutiva e avassaladora. Seus mecanismos de defesa o tornaram apto a prever os próximos passos de todos os outros personagens, ainda que de forma calculista e manipuladora.

Elijah estuda o caso de Kevin, afinal, conhecimento também e’ poder. Munido do maior número de informações possível, ele convence A Besta de que ele e’ um herói, que luta pelos desajustados, pelos “quebrados” numa analogia aos traumatizados de todas as formas, e principalmente a ele próprio, pois A Besta poupa aqueles que sofreram traumas, como ele próprio sofreu, da mesma forma em que poupou Casey (Anya Taylor-Joy), em cena do filme Fragmentado.

Elijah faz aliança com várias das personalidades de Kevin: valoriza Patrícia e a trata como uma dama, mostra que conhece arte, valoriza o fato de Hedwig ter nove anos para sempre, considerando que este seria seu superpoder – Você pode ver o mundo como realmente e’ -, em referência ao fato de que as crianças tem uma visão de mundo mais realista do que os adultos, além de valorizar sua dança, motivo de orgulho de Hedwig.

Ao convencer A Besta de que ele e’ o protetor dos “quebrados”, torna-o seu próprio protetor, seu aliado no plano de fuga, ao mesmo tempo em que se vinga dos enfermeiros que o mantiveram aprisionado e sob tortura. Chama A Besta de Anjo Vingador, transformado o que era considerado vilão, em herói.

Elijah desafia David a quebrar a porta de aço, provando que sua forca e’ realmente extraordinária. Além disso, diz para David que ele não deveria se esconder pelas sombras, incitando-o a agir como herói. Chama-o de Overseer, o nome pelo qual ele tem sido chamado nos jornais, afinal, todo herói tem um segundo nome.

Nomear alguém ou alguma coisa, fato ou experiencia torna-o real, palpável, consciente, e Elijah sabe muito bem como manipular as pessoas.

Origem do Trauma = Origem do Talento? Quem são seus pais?

Você não sabe como e’ ser tão diferente que não sabe onde se encaixa. E’ um sentimento terrível. Elijah Price

Elijah tem um sentimento de inadequação, de desadaptação constante, devido ao seu problema de osteogênese imperfeita de tipo I, que o faz levar uma vida de extremos cuidados e limitações. Viver uma vida cheia de limitações pode ser traumática, porem viver uma vida cheia de limitações e dores constantes pode ser terrível. Elijah tenta compensar sua limitação física com sua aguçada capacidade intelectual, um verdadeiro gênio capaz de aprender rápido, de raciocinar fora da curva, porem dominado pela sombra. Sua existência sombria girava através da dor, cirurgias e internações, compensada por uma autoestima incentivada pela mãe, que ao mesmo tempo o tira de sua zona de conforto constantemente, tentando fazê-lo levar uma vida normal, na medida do possível. A mãe o reconhece como extraordinário, mas a figura do pai está ausente. Elijah recebe todo o amor e atenção da mãe, ele e’ a única razão de sua existência, fato muito comum quando uma criança tem necessidades especiais. A Sra. Price tenta compensar a vitalidade física de Elijah estimulando sua capacidade intelectual e sua fantasia, talvez numa compensação exagerada, quem sabe. Lidar com um filho deficiente também pode desencadear um comportamento heroico e inadequado dos pais.

Na verdade, a Sra. Price tem um animus forte e determinado, desenvolvendo a curiosidade intelectual do filho através dos quadrinhos, porem incentivando o filho a viver uma realidade paralela, onde as batalhas entre super-heróis e vilões são o pano de fundo. Elijah não poderia ser um herói, pois de acordo com o ponto de vista dos quadrinhos, ele precisaria ter algum atributo físico especial, pois nos quadrinhos tradicionais não há heróis pautados apenas na inteligência, como os grandes gênios das ciências e tecnologias continuam a não receber o mesmo destaque que astros do esporte e das artes ainda hoje não o recebem. A inteligência ainda não e’ devidamente reconhecida como um atributo heroico, mesmo que cientistas do mundo todo estejam ajudando as pessoas a curarem suas doenças e a terem sua qualidade de vida melhorada, nenhum cientista inspirou um herói dos quadrinhos, nem mesmo Albert Einstein.

A inclusão social da pessoa deficiente ainda e’ um problema, mesmo numa era em que precisamos cada vez menos de habilidades físicas para desenvolver muitos trabalhos, que hoje podem ser realizados apenas em frente a um computador, computadores estes capazes de se adaptar a várias deficiências, como visão, tato e audição. Elijah supervaloriza aquilo que lhe falta: a saúde física.

Aquilo que nos falta, muitas vezes nos domina. Muitas vezes prestamos mais atenção na ausência do que na presença, seja de pessoas, seja de atributos ou qualidades pessoais. Tendemos a buscar aquilo que projetamos no outro, não apenas nossos aspectos sombrios, como nossas qualidades mais cobiçadas e valorizadas. Elijah usa sua extrema capacidade intelectual tentando se completar através do outro, através de sua antítese corporal, pois sabe tem um corpo tão frágil, tão “quebrável”, que alguém “inquebrável” deveria existir para compensar sua existência. Ao invés de buscar o “inquebrável” em si mesmo, facilmente vislumbrados em seu sucesso profissional, sai em busca de alguém que tornaria sua existência completa, significativa. Elijah busca por um significado para sua vida e para sua deficiência, mas busca isto fora de si próprio, projetando isto primeiro em David Dunn, depois também na Besta, a personalidade dissociada de Kevin que possui uma forca física também extraordinária.

A determinação de Elijah em encontrar um proposito para sua própria vida acaba por ajudar David, ainda que de uma maneira torta, patológica, a encontrar um sentido para sua própria vida. Mesmo que os meios de Elijah tenham sido absurdamente destrutivos, ele descobre em David um potencial não realizado, já que David desconhece seu próprio potencial, seu próprio “dom” de ser indestrutível, potencial do qual abriu mão em nome de um grande amor, mas cuja negação o estava deprimindo e tornando sua existência vazia.

Assim como Elijah, David tinha alguém que acreditava nele, seu filho Joseph, interpretado por Spencer Treat Clark . Joseph foi o primeiro a acreditar que seu pai poderia ser um herói. E’ natural que mães e filhos acreditem que seus filhos e pais sejam especiais, afinal, o amor e’ a ferramenta mais poderosa na criação de autoestima e auto aceitação. O sentimento de ser especial depende do amor e da aceitação daqueles que amamos e que nos amam, e neste ponto, tanto Elijah, quanto David, recebem o amor incondicional, respectivamente da Sra, Price, interpretada por Charlayne Woodard, e de Joseph.

Porém, no caso de Kevin a situação e’ bem diferente. Kevin sofreu abusos terríveis de sua mãe, levando-o a desenvolver transtorno de dissociação de personalidade, o qual sua mãe também apresentava. O pai de Kevin morreu quando foi buscar tratamento para a esposa, e na cena do trem, pouco antes do acidente causado por Elijah, vê-se o pai de Kevin com um panfleto de uma clínica especializada em transtorno de dissociação de personalidade, onde estava indo em busca de ajuda. Esta cena do filme revela que tanto David, quanto A Besta só se tornaram quem são por causa da intervenção de Elijah.

A jornada do herói, característica do processo de individuação, pode ter seu curso abalado pelos traumas. A jornada do herói pode também ser tratada como desordem, principalmente no caso de adolescentes transgressores, onde a transgressão pode ser uma tentativa de se destacar da multidão, um chamado do processo de individuação, e, caso tratada como patológica, desvirtuara’ o adolescente de seu processo criativo. Muitas vezes a transgressão tem um aspecto patológico e outro criativo, e não podemos nos fixar na interpretação patológica apenas, sob o risco de perder-se o contato com os aspectos criativos da psique.

Todo herói tem um senso ético, que caracteriza sua ação, porém no trauma, este senso ético pode ser alterado pelas defesas e adaptado `as condições defensivas necessárias `a sobrevivência física e mental do indivíduo. Algumas destas defesas, além de patológicas, podem ter componentes psicopáticos, onde a ética e a filosofia de vida se amoldam `as necessidades defensivas, criando um elaborado circuito de crenças filosóficas que norteiam a ação, antes possivelmente heroica, agora em sua polaridade oposta, o vilão, a outra polaridade da luta arquetípica entre o bem e o mal. Neste caso, as defesas se transformam em forças destrutivas, que podem tanto estar direcionadas ao próprio indivíduo, quanto a aqueles `a sua volta.

Traumas são inevitáveis, e estamos todos sujeitos a eventos traumáticos, mas o porquê de alguns de nos reagirmos de forma mais ou menos resiliente ainda e’ uma questão explorada por vários ramos da psicologia. O fato e’ que todos reagimos ao trauma, alguns se transformam e conseguem seguir em frente, outros ficam fixados e precisam de ajuda profissional, muitas vezes intensiva, a fim de que possam vir a se recuperar.

Quem seriamos nos se não tivéssemos sofrido nenhum tipo de trauma, nenhum tipo de sofrimento físico ou mental? Seriamos capazes de resiliência e de adaptação `as diversidades da vida? E’ claro que uma mãe “suficientemente boa”, como descreve Winnicott, e’ fundamental para o desenvolvimento saudável da personalidade, porém, uma mãe, ou uma vida absolutamente perfeitas e sem desafios, onde todas as nossas necessidades seriam satisfeitas como num passe de magica nos tornaria adultos mimados, frustrados e com baixa capacidade de adaptação.

E’ claro que a trilogia de Shyamalan traz casos extremos e com a licença da linguagem cinematográfica, mas não podemos deixar de pensar que os traumas sofridos durante a vida de um indivíduo não devem, necessariamente, ser considerados uma fatalidade sem possibilidade de transformação criativa.

Nos filmes há diversos fatores que interferem na vida dos três personagens principais:

  1. Elijah e’ encorajado pela mãe a viver num mundo irreal, imaginário, onde os quadrinhos são uma fuga da realidade, não uma adaptação a ela.

  2. David exerce sua forca e capacidade intuitiva para fazer justiça com as próprias mãos, seus atos heroicos não são condizentes com o momento histórico atual, onde não há mais espaço para um herói mítico destruir o mal com as próprias mãos. Sua intuição poderia ser utilizada como uma importante ferramenta no combate ao crime sem que ele precisasse se expor aos perigos a que se expos.​​

  3. Kevin foi considerado um ser superior pela primeira psiquiatra que cuidou dele, considerando que as incríveis transformações e aptidões características de cada uma de suas personalidades o tornavam de fato um ser extraordinário, mas será que se as personalidades se integrassem ele perderia suas aptidões tão bem desenvolvidas? O processo psicoterápico mostra que as qualidades do indivíduo não se perdem com a elaboração dos traumas, mas se libertam e encontram novas maneiras de se expandir.

Aqui vale ressaltar que Kevin foi o único personagem que tem o apoio de alguém que não fazia parte de sua família original. Ele tem a empatia de Casey Cooke, interpretada por Anya Taylor-Joy. A empatia de Casey por Kevin acontece pela compreensão de que ambos sofreram as mesmas feridas, os mesmos abusos, e’ uma empatia recíproca, já que Kevin foi o primeiro a demonstra´-la por Casey, quando a liberta em uma cena de Fragmentado. Agora e’ Casey quem vem ao socorro de Kevin, desta vez conseguindo inclusive empatizar com A Besta, a personalidade mais instintiva e agressiva de Kevin, o grande protetor de Kevin, como ele mesmo se declara. O que Casey não poderia prever e’ que estava sendo usada pela psiquiatra, que não tinha a intenção verdadeira de ajudar nenhum de seus pacientes, mas sim destruí-los, já que, dentro de sua concepção, não havia espaço para pessoas extraordinárias.

A psiquiatria/psicologia a serviço da normalidade – Mera coincidência?

A psiquiatra, Dra. Ellie Staple, interpretada por Sarah Paulson tem por objetivo provar que seus três pacientes são pessoas normais, isto e’, que nenhum deles tem capacidades extraordinárias, características aos super-heróis, ou, que se as tem, estas são perfeitamente explicáveis, portanto, normais.

Tornar o “anormal” em “normal” tem sido uma das grandes batalhas filosóficas da psicologia e da psiquiatria. A própria definição de normalidade e de doença mental e’ dinâmica em vários detalhes e definições da DSM-V. As doenças chamadas nervosas, psíquicas ou psiquiátricas se transformam através dos tempos e das culturas, mantendo-se alguns aspectos universais, como a importância da percepção de tempo e espaço, a presença de alucinações, bem como a capacidade de lidar com a realidade. Hoje se fala em doentes funcionais, ou seja, aqueles que tem alguma patologia, mas que podem, de uma maneira geral, levar uma vida normal. Vários problemas psiquiátricos hoje em dia possuem tratamentos psicológicos e medicamentosos que permitem que se leve uma vida normal.

Os três pacientes da Dra. Ellie tem comportamentos agressivos e antissociais, mesmo David, cuja intenção e’ de salvar as possíveis vítimas de malfeitores. Elijah e’ um perigoso assassino em massa, e Kevin não consegue controlar seus instintos mais primitivos, como assassinato e antropofagia, desempenhados pela Besta.

A psiquiatra, ao invés de tratar os pacientes, tenta convencê-los de que não são capazes de fazer o que fazem. Ora, o papel do tratamento psicológico ou psiquiátrico não e’ o do convencimento, e sim o da conscientização dos problemas, e das implicações que as atitudes tomadas nos levam a enfrentar. Ao invés de trabalhar o desenvolvimento de um ego saudável, capaz de elaborar e transformar as defesas, ela tenta exatamente o contrário, sobrepujar um ego já instável, tanto no caso de David quanto de Kevin, levando-os a duvidar, mesmo que por um instante, de suas capacidades, tentativa absolutamente sem sucesso no caso de Elijah. Subestimar a inteligência e as defesas dos clientes e’ uma falha extremamente grave em todo processo psicoterápico. Toda defesa tem uma razão de ser, e tentar demovê-la, seja por constrangimento ou técnicas de persuasão, muitas vezes usadas por técnicas de coaching ou TCC, pode levar a um sério agravamento do quadro, já que estas técnicas mostram ser mais eficazes quando não há comprometimento da estrutura egoica ou a presença de patologias mais graves.

No filme, a Dra. Ellie está a serviço de uma confraria, a confraria do trevo de três folhas. O trevo de três folhas e’ um símbolo da Santíssima Trindade. Ela se comporta como uma enviada de Deus, no intuito de manter a ordem universal, onde qualquer ser extraordinário abalaria a ordem natural do universo. Ela diz isso a David, pouco antes de sua morte, onde foi covardemente assassinado por outro membro de sua confraria:

Dra. Ellie para David: - “Eu quase te convenci de que você era um homem normal? Eu teria deixado você em paz, mas quando a horda apareceu aqui eu tive que vir. Simplesmente não pode haver deuses entre nós, não e’ justo. Se aparece um de vocês, imediatamente aparece o seu oposto”.

Não há luz sem sombra, não há processo de individuação sem a elaboração dos aspectos inconscientes. Todo símbolo traz conteúdos antagônicos que precisam ser elaborados. Este e’ o grande problema da igreja católica, ao tentar excluir o mal, jogou-o para a sombra, para o inconsciente, causando um desenvolvimento unilateral da consciência Cristã, a qual lutamos até hoje para integrar todos os aspectos varridos para fora da consciência.

A psiquiatra representa nossas ideias pré-concebidas. O método do convencimento e’ um dos mais antigos e importantes que existe na humanidade, o mais usado, e está muito em moda hoje em dia, tanto nos livros de autoajuda como nas técnicas que prometem a transformação rápida de comportamentos ou sentimentos e emoções indesejadas. Aquilo que hoje aparece travestido de novo, na verdade e’ muito antigo, sendo, inclusive, característico de técnicas de tortura psicológica e de conversão religiosa dogmática, inclusive.

Ela também mente ao tentar convencê-los a reprimir e a esconder suas características mais especiais. Sobre isto, Elijah diz: - ...estão mentindo para nós – nos quadrinhos você iria a um lugar publico onde todos poderiam ver quem você e’.

Elijah fala sobre a necessidade de reconhecimento, de ser visto, uma das mais primitivas formas de ser amado e’ ter a própria existência reconhecida através do olhar do outro, e e’ isto o que a Dra. Ellie quer, que eles se conformem com uma existência anônima, incógnita, e que suas qualidades excepcionais jamais sejam reconhecidas.

Encontrar o equilíbrio entre a necessidade narcísica de ser visto e reconhecido pelo outro não e’ fácil, várias nuances da educação de crianças estão em jogo aqui, e falhas neste reconhecimento pode levar ao desenvolvimento de transtornos narcisistas, depressão, caráter histriônico, entre outros.

Elijah quer ser reconhecido através do antagonismo aos atos heroicos, ele mesmo, um anti-herói. Nesta fala ele se refere ao peso que uma identidade anônima traz aos heróis dos quadrinhos, mas também `a falta de reconhecimento pessoal, profissional e afetivo a que estamos sujeitos na vida.

A Dra. Ellie pede, com isto, a que renunciem à própria existência, na medida em que reduzi-los a pessoas comuns seria condena-los a não serem vistos ou reconhecidos, ou seja, não serem nem amados, nem odiados. O oposto do amor não e’ o ódio, e sim a indiferença, e e’ isto o que ela faz, mostra-se indiferente `as qualidades excepcionais que os três possuem. Um de seus grandes erros, inclusive, e’ subestimar a inteligência e o raciocínio estratégico de Elijah, que inverte o jogo e acaba por usar as câmeras e mecanismos de segurança do hospital para atingir seu objetivo, pois as câmeras que deveriam evitar a fuga dos pacientes, acabam sendo usadas para revelar sua existência ao mundo.

A Traição e os assassinatos

Trair a confiança de alguém muitas vezes se assemelha ao sentimento de perda pela morte. Quantas pessoas se referem `a traição como ao sentimento de que algo morreu dentro de si?

Como os filmes da trilogia alternam a linguagem simbólica com a literal, a traição e as mortes, tanto simbólicas, quanto literais, se misturam.

Elijah usa A Besta, convencendo-o de que ele seria um Anjo Vingador, o defensor dos “quebrados”, porem a revelação de que Kevin se transformou no que e’, um ser dividido pela dor do trauma, em que as múltiplas personalidades representam seus mecanismos de defesa e cooperação com o trauma, teve origem na morte de seu “salvador”. O pai de Kevin foi morreu no acidente trem, planejado por Elijah, o que significa que foi assassinado por Elijah. Ao ter este segredo revelado por Joseph, A Besta revela sua principal função: ele existe para proteger Kevin. Como Elijah causou mal a Kevin, matando seu pai, Elijah deve sofrer.

Kevin e Casey também são traídos pela psiquiatra. Dra. Ellie, conhece a ligação especial que existe entre Kevin e Casey, e simulando interesse em ajuda-lo, deixa que Casey se arrisque e interceda junto `a A Besta. Aqui temos Casey agindo levada pelo arquétipo do herói, na tentativa de salvar Kevin, ela se arrisca a ser morta pela Besta. Devido `a sua ligação com algumas personalidades da Horda, ela consegue fazer com que A Besta “deixe a luz”, sugerindo que Kevin assuma o controle das personalidades, e que ele e’ o verdadeiro responsável pelo controle da luz. Neste momento de redenção, em que a personalidade original assume o controle, este perde as características “imortais” da Besta, ficando, desta maneira, susceptível `as balas, que poderiam não ser eficazes o suficiente para matar A Besta. Aqui vemos que a própria psiquiatra parece acreditar na pseudo-imortalidade da Besta, já que esperou que Kevin viesse “para a luz” para que os membros da confraria disparassem contra ele. O que poderia ser um importantíssimo momento terapêutico, transforma-se num crime cruel.

O momento terapêutico se dá quando o terapeuta e’ capaz de entrar nos aspectos sombrios do paciente, estando em conjunctio com ele, numa “participation mystique”. Este encontro terapêutico, que no caso ocorreu entre Casey e Kevin, e’ capaz de transformar as defesas, porem necessita de tempo e constância para se estruturar de uma maneira consistente e duradoura. A traição da psiquiatra pode ser vista em muitos processos terapêuticos, em que o terapeuta atropela, desrespeitosamente, o processo do cliente, manipulando ou interpretando erroneamente estas defesas, numa atitude muitas vezes despreparada, onde a própria sombra, crenças, ou traumas não elaborados do terapeuta interferem no processo terapêutico do cliente.

O trauma tem uma ética própria, adaptada às defesas, muitas vezes defesas psicopáticas. E’ preciso estar consciente delas, mesmo quando as defesas psicopáticas pertencem ao terapeuta, como no caso da Dra. Ellie.

Manter o equilíbrio e a ordem implica em sermos medíocres?

Dra. Ellie tem uma visão de mundo moldada pela confraria ‘a qual pertence. Ela não está a serviço do bem estar de seus pacientes, mas sim a de fazer com que sua visão de mundo não seja abalada pela realidade dos fatos, ela representa, como um personagem da ficção, aquilo que muitas instituições governamentais, religiosas ou ativismos sociais de modo geral acabam por realizar, ou seja, adequar, ou moldar os fatos e pessoas `a sua visão de mundo. Aqui me refiro a enfiar algo ou alguém com tanta truculência dentro de um molde ou forma, a ponto de que pedaços importantes sejam destruídos para que o molde prevaleça, destruindo, desta forma, aquilo que caracteriza o indivíduo como ser único.

Ela representa o “vamos deixar tudo como sempre foi”, “todos tem que ser conforme o meu desejo”, ela representa o medo do novo, da mudança, da transformação. Ela representa, acima de tudo, a tentativa de vitória do “status quo”, do senso comum, do banal.

A busca pela tão famigerada “normalidade” adquire uma crueldade requintada, sádica, digna de fazer com que nossos vilões nos pareçam mais simpáticos. A cena do afogamento de David numa poça d’agua, pelos membros da confraria, enquanto ela confessa a ele o reconhecimento de seus dons extraordinários, assumindo que sua execução sumaria, diante do olhar de seu próprio filho, deve-se ao fato dele ter dons comparados ao dos deuses, mostra a face sádica de sua personalidade, já vista na patética cena da “terapia em grupo”, em que tenta convencer aos seres extraordinários o quanto eles são comuns.

A coleção dos personagens principais: Sra. Price, Casey e Joseph

No filme, como na vida real, há muitas reviravoltas, nem sempre os personagens principais são responsáveis pelos resultados finais da ação. Afinal, o que seria de Kafka se seu amigo, Max Brod, tivesse queimado seus manuscritos?

O que seria de nossos seres extraordinários sem a cooperação da “coleção dos personagens principais”, como Elijah nomeou sua mãe, Casey e Joseph? Os três personagens coadjuvantes tem papeis fundamentais durante a trama dos três filmes da trilogia, Corpo Fechado, Fragmentado, e em Vidro, que eu prefiro chamar de Sr. Vidro, como o vilão se autodenomina no filme.

A Sra. Price antevê a cena que esta’ para acontecer. Ela conhece não so’ ao filho, como também os quadrinhos. Elijah planejou para que as habilidades extraordinárias de David e da Besta fossem reveladas a todos. A última fala da Sra. Price para o filho foi: - Você foi espetacular!

O que de fato ele foi, pois passou a vida criando grandes tragédias, onde dois seres extraordinários, além dele próprio, foram revelados. Ele manipulou a psiquiatra, criando uma distração, fazendo com que ela olhasse em outra direção, enquanto programava sua saída triunfal, não só do hospital como da vida. Mas acima de tudo, ele também foi extraordinário ao denunciar o esquema de tratamento psiquiátrico cruel e assassino a que foram submetidos.

Joseph, ao revelar para Kevin, que a chave de tudo está nos pais, contando que o pai de Kevin morreu por culpa do acidente de trem causado por Elijah, causa uma grande reviravolta na ação. A Besta, que estava sendo manipulada por Elijah, assume existe proteger Kevin. Ele diz para Elijah que não pode confiar nele para manter Kevin seguro, atacando-o. Nesta cena vemos a supremacia da defesa sobre a empatia, empatia esta que Elijah havia evocado anteriormente, colocando-se na mesma posição fragilizada de Kevin, evocando o herói que acreditava existir nele. No entanto, A Besta não tem as mesmas características heroicas de David. Sua personalidade dissociada não condiz com o ego estruturado de um herói, necessário para a jornada do processo de individuação. Kevin ainda tem um longo processo a seguir antes de adentrar na jornada do herói propriamente dita.

Ao revelar o segredo de Elijah, Joseph liberta Kevin, e consequentemente, A Besta, do compromisso de proteger Elijah, o conhecido vilão da história, pelo menos um deles até este momento.

Casey tem o importante papel de trazer Kevin para a luz, ela age via empatia, a mesma empatia que os ligou no filme anterior, Fragmentado, a empatia pela dor e pelo sofrimento que ambos sofreram pelas situações de abuso vividas. Casey teve recursos para lutar contra seu abusador e reconstruir sua vida, e chama Kevin para assumir o controle da luz, ou seja, da consciência, ao afirmar que ele e’ o responsável pelas ações da Besta, e assim, poderia impedi-lo. Ela consegue fazer com que Kevin “segure a luz” até o momento final.

O que parecia um processo de transformação terapêutica, conduzido pela psiquiatra, na verdade se mostrou uma manipulação destrutiva, uma estratégia para fragilizar A Besta, tornando-a vulnerável aos tiros da confraria do trevo de três folhas. Mas mesmo assim, Kevin deixa a vida no controle de sua consciência, agora ele tinha a opção de decidir quem ficaria na luz.

Ao final, a coleção dos personagens principais, ou seja, aqueles que acreditaram no poder e capacidades extraordinários de Elijah, David e Kevin, causam uma reviravolta, denunciando os métodos de tortura e extermínio da Dra. Ellie, causando uma grande comoção pública. Ao final, os 3 heróis morrem demonstrando que sua existência e’ real, e’ possível, e o objetivo da confraria do trevo de três folhas não e’ atingido.

Elijah programa meticulosamente os computadores e as câmeras do hospital para filmarem as últimas cenas de nossos personagens. Tudo e’ gravado e enviado para um servidor `a distância, que envia as imagens para a Sra. Price, Casey e Joseph, que se encarregam de mostrar as cenas extraordinárias ao mundo. Muitas vezes, os coadjuvantes são os grandes responsáveis pelas ações grandiosas, ninguém está só, todos dependemos do afeto, da confiança e da aceitação do outro para termos nossa existência reconhecida. Alias, a historia mostra que grandes fatos e acontecimentos só vem `a tona muitos anos após o ocorrido, como no caso do matemático Alan Turing, cuja historia foi contada no filme O Jogo da Imitação, o qual analiso como parte do meu livro A Verdade no processo analítico.

A última fala da Sra. Price, ao divulgar o vídeo e’: - Este e’ o momento em que nos deixam entrar no universo.

Ou seja, quando somos reconhecidos em nossa plenitude, quando temos nossa existência reconhecida e’ que passamos a existir de fato. Nossos talentos devem sair das sombras e ser exercidos como tal, caso contrário, os deuses viram doenças.

O reconhecimento dos talentos e habilidades de Elijah, David e Kevin trazem o reconhecimento não apenas deles próprios, mas também da Sra. Price, Casey e Joseph, pois ter reconhecido o valor de alguém que amamos, e em quem acreditamos, também nos ajuda a encontrar nosso papel no mundo. Termos nossas crenças e convicções asseguradas pelos outros também e’ um fator estruturante da personalidade e da auto-estima.

A verdade revelada e’ sempre libertadora, mesmo que nos custe muitas perdas e sacrifícios.

Algumas palavras do Sr. Vidro:

-Tudo que e’ extraordinário pode ser explicado e, ainda assim, ser verdade.

- Tudo o que vemos e fazemos tem uma base na ciência. Mas haverá limites. Este e’ o mundo real, não um cartoon. E, no entanto, alguns de nós não morrem de balas. Alguns de nós ainda podem dobrar o aço. Isso não e’ uma fantasia.

A grande lição de Jung e’ que mesmo que um cliente tenha fantasias sobre sua existência, essas fantasias podem ter um fundamento, tanto na realidade, quanto na vida simbólica. Somos seres extraordinários habituados a uma vida comum, onde habilidades são descartadas por não estarem condizentes com os valores sociais em que vivemos, mas ainda assim, estas qualidades são reais e valiosas. Não podemos nos submeter ao juízo estereotipado do momento cultural em que vivemos e desacreditar de que somos capazes de nos superar. Traumas, apesar de dolorosos, podem ser elaborados. Podemos nos colocar em evidência pelo que temos de melhor, caso contrário, a sombra buscara’ a evidência como se fosse luz, como aconteceu com Elijah e com tantos anti-heróis que se apresentam nos dias de hoje, heróis do crime, da guerra e da desavença política e religiosa.

Referências Bibliográficas:

BERTOLOTTO SCHNEIDER, Solange: A Verdade no processo analítico

CAMPBELL, Joseph: “O Herói de Mil Faces”

“O Poder do Mito”

FREUD, Sigmund: “Psicopatologia da Vida Diaria, 1901

GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf: “Power in the Helping Professions”

“Eros on Crutches – On the Nature of the Psychopath”

JUNG, Carl Gustav Jung: CW VII, “Two Essays of Analytical Psychology”

CW VIII, “The Structure and Dynamic of Psyche”

CW X “ The Archetypes and the Collective Unconscious”

Filmes referidos:

Corpo Fechado (2000), Fragmentado(2016), Vidro (2019) – direção e roteiro de M. Night Shyamalan

O Jogo de Imitação – direção de Morten Tyldam, roteiro de Graham Moore

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