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POR QUE VOCE NÃO CHORA? CONTÁGIO PSÍQUICO: DESAFIOS DA RELAÇÃO TRANSFERENCIAL E SAÚDE MENTAL

Atualizado: 17 de jun. de 2023

POR QUE VOCE NÃO CHORA?

CONTÁGIO PSÍQUICO: DESAFIOS DA RELAÇÃO

TRANSFERENCIAL E SAÚDE MENTAL DO PSICOTERAPEUTA

O filme Por que você não chora retrata o episódio de quando Cibele Amaral era estagiária de psicologia no Instituto de Saúde Mental (ISM) em Brasília (DF), e está disponível no Amazon Prime

No filme, Jéssica (Carolina Monte Rosa), menina de origem humilde que veio do interior para estudar na Capital, se depara com um novo mundo durante o estágio na faculdade de psicologia, quando passa a atender Bárbara (Bárbara Paz), diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline. Jéssica é séria demais. enquanto Bárbara é uma bomba relógio. Jéssica nada sabe de si, Bárbara está sempre em processo de autoconhecimento. Enquanto Bárbara vai ganhando limites e confiança para recuperar sua vida, Jéssica vai descobrindo que nunca teve uma.

Este texto foi inspirado na minha apresentação da análise do filme durante o Cine Sedes Jung e Corpo, no Instituto Sedes Sapientiae, em 28 de abril de 2023.

As questões relativas à transferência e contratransferência são comuns aos estudos de caso que ocorrem normalmente durante a formação no curso de Psicologia e nas especializações em várias áreas da Psicoterapia, Psicanálise e Psicologia Analítica.


A Supervisão Clínica mantém um olho no paciente e outro no supervisionando, sempre observando qual a dificuldade que cada caso específico apresenta, seja de orientação teórica ou de atitude terapêutica diante do paciente. Para isso, é preciso que o psicoterapeuta se questione sobre como se sente na presença de cada analisando, como o comportamento do analisando interfere em como me sinto durante cada sessão. Alguma reação psicossomática se manifesta durante a sessão? Em mim ou no analisando? A ansiedade e a fantasia de abandono se exacerbam ou são amenizadas pela relação terapêutica? Isso muda durante o atendimento online? Quais técnicas expressivas são pertinentes a cada caso? Quais devem ser evitadas?


Todos esses questionamentos, e muitos outros, devem fazer parte dos bastidores do pensar psicoterapêutico, devemos estar sempre atentos a todos os detalhes que podem interferir nessa relação.

A psicoterapia se sustenta no tripé do amplo estudo teórico, da análise pessoal e da supervisão de casos. A personalidade do analista torna-se sua ferramenta de trabalho, apenas quando estes três vértices estão equilibrados. As relações transferenciais são um aspecto de extrema importância na prática clínica, e o foco da supervisão, além da compreensão teórica de cada caso, visa analisar a relação analista - analisando, e as atualizações dos complexos arquetípicos que caracterizam a relação transferencial.


Não basta supervisionar o caso, também é preciso supervisionar as relações transferenciais, principalmente a contratransferência, é ela que dá a possibilidade de identificar o que funciona ou não no processo. Tanto o paciente como o terapeuta devem estar seguros durante o processo psicoterápico, para isso, é preciso que o psicoterapeuta, seja estudante ou profissional habilitado, fique atento aos riscos de contaminação emocional que cada caso pode representar. Muitas vezes os pacientes podem trazer questões ainda não elaboradas pelo psicoterapeuta, e uma identificação via complexos, ou complementariedade sombria pode ocorrer, impedindo o sucesso do processo analítico, ou desencadeando processos psíquicos graves, tanto no paciente quanto no psicoterapeuta.


A relação psicoterapêutica entre Jessica e Bárbara no filme, é a de A.T., Acompanhamento Terapêutico, nesse tipo de atendimento, o terapeuta acompanha o paciente em suas atividades diárias por um período maior do que o de uma sessão terapêutica, que dura, em média 50 minutos, podendo se estender a várias horas por dia, vários dias por semana, dependendo da indicação clínica de cada caso. O trabalho como A.T., por ter essas características, pode encontrar dificuldades no estabelecimento de um setting profissional claro, já que os encontros podem se dar tanto numa clínica, quanto em situações da vida privada, como no caso de Jessica e de Bárbara, o que pode vir a dificultar os limites da relação, fazendo com que o trabalho terapêutico seja confundido com amizade ou qualquer outra relação pessoal. Devo ressaltar que esse risco ocorre também quando o setting terapêutico é protegido pelos espaços físicos e virtuais.


Essa confusão de papéis, entre relação pessoal e terapêutica fica claro na seguinte cena, pois temos muito material para analisarmos o papel de Jessica.


Jéssica - As pessoas não me enxergam, mas você me enxergou, mesmo eu sendo assim, calada demais. Fechada demais. Eu não quero que minha irmã fique assim como eu. Ela é a melhor parte da minha vida. E agora tem você, minha primeira e única amiga. Você quebrou essa casca, e agora eu não sei o que fazer sem ela. Sem a casca parece que eu não sou nada.

Ao ser vista pela primeira vez, Jessica percebe a falta de conexão íntima em toda sua vida.


Sonho inicial


Cenário de destruição - mar escuro e agitado, separado por um muro. Do outro lado do muro há sinais de que a área já havia sido invadida. Bebe chorando no berço, enquanto a mãe alterna entre olhar pela janela, olhar a criança, tapar os ouvidos para evitar ouvir o choro, saindo e fechando a porta, deixando o bebe chorar. A chuva parece invadir o quarto, não há separação nítida entre a chuva que cai lá fora e dentro do quarto. Mãe com sinais de apatia e depressão.


Situação de Jessica ao ter o primeiro sonho - Chove lá fora, a chuva invade sua cama, há uma goteira sobre seu rosto, uma gota cai sobre seu olho direito, como um lágrima imposta de fora para dentro.

Ao analisar esse sonho, tenho em mente que todos os autores desenvolvimentistas estão de acordo de que o abandono gera um trauma precoce. Essa cena do sonho mais tarde revela ser a realidade que Jessica enfrentou enquanto ainda bebe, deixada chorando, sozinha no berço, até que parasse de chorar, não porque havia sido atendida e confortada, mas porque não adiantava chorar, o cuidado não viria.


Segundo Newmann, o Uroborus é o estágio arquetípico inicial, corresponde desde à gestação ao primeiro ano de vida, ou seja, ao período pré-egoico, uma experiência borderline, equivalente a um estágio da pré-história humana, onde o indivíduo e o grupo, o ego e o inconsciente, o homem e o mundo estavam indissoluvelmente ligados pela participation mystique.


Erik Erikson chama esse estágio de confiança versus desconfiança, correspondente também ao período de zero a um ano de vida, estágio esse em que a criança experimenta o mundo através da pessoa que cuida dela, devendo receber cuidados consistentes, previsíveis e confiáveis para que possa desenvolver um senso de confiança que se estende a outros relacionamentos.


Donald Winnicott desenvolve os conceitos de holding e da mãe suficientemente boa, e considera que a técnica da mãe dar colo (ou a pessoa que cuida do bebe), banho, alimentar e tudo o mais que ela faz pelo bebe, complementa a ideia do corpo como um lugar seguro.


No caso de Jéssica, observamos que essas necessidades primordiais para com um bebe não foram atendidas, um vínculo de cuidados seguro e estável não foi estabelecido com sua mãe, o que a levou a desenvolver um vínculo terapêutico sombrio com Bárbara, baseado na confluência dos complexos afetivos carregados de afeto de ambas.


No início do filme, já na clínica, vemos uma Bárbara à princípio apática e isolada, observada por Jessica e por outros colegas, que questionam se Bárbara seria ou não paciente, já que ela era bonitona. Quando Bárbara percebe que uma paciente depressiva, quase catatônica, se aproxima de Jessica, praticamente pula na frente de Jessica, assumindo o controle.


Bárbara tira Jessica da apatia, praticamente ordenando que Jessica a ajude a procurar um cabelo preto para seu fantoche, cria um fantoche parecido com Jessica, e usa o fantoche para dizer o quanto Jessica é triste, e a presenteia com o boneco.


A construção do vínculo terapêutico


Mais tarde Bárbara manda Jessica ficar sentada ao lado de uma paciente catatônica, dizendo que as duas iriam se dar muito bem, pois as duas são quietinhas, caladas. Jessica obedece, e só sai de lá quando Bárbara, visivelmente incomodada pela apatia de Jessica, vai buscá-la.


Jéssica traz a passividade do bebe que espera ser retirado do berço para a relação terapêutica.

Bárbara cobra atividade e questiona a obediência de Jessica.


Quem é a terapeuta de quem?


Bárbara inicia o vínculo terapêutico, escolhendo Jessica, tirando-a da apatia.

Jessica escolhe Bárbara, achando que ela seria um caso mais fácil, por não ser delirante.


Jéssica funciona no dinamismo patriarcal, possui uma persona rígida, não demonstra emoções, segue as instruções formais como um robô. Seguir os protocolos formais é uma maneira de evitar relacionamentos íntimos.

Bárbara diz precisar de controle, de limites. Jessica é muito boa em respeitar os limites dos outros, em não impor nem sua presença, nem sua vontade. Já Bárbara, uma paciente portadora do Transtorno de Personalidade Borderline, precisa de limites claros, característicos do arquétipo patriarcal criativo, pois se comporta como uma criança que não aprendeu a regular suas próprias emoções e a respeitar os limites sociais de comportamento.


Histórico Pessoal das Personagens


Jéssica - mãe depressiva e apática. Tia depressiva, cuidar de Joice é uma obrigação. Família passiva, assistindo TV como autômatos. Trabalha, estuda e cuida da irmã, Joice, de cerca de oito anos, mais ou menos a mesma idade do filho de Bárbara. Sua casa é simples, com uma goteira sobre sua cama, sua rotina é sem graça, sem vida, como se vivesse num piloto automático. É preciso ficarmos atentos para não confundirmos a pobreza material com a pobreza emocional da vida de Jessica, todos os gestos são autômatos, sem graça ou leveza, as necessidades básicas de alimentação e cuidado são desempenhadas sem alegria ou interação afetiva entre ela e sua irmã, Joice.


A mãe de Jéssica também se mostra depressiva, apática, porém passivo-agressiva, pois indivíduos agressivos costumam demonstrar agressividade de maneira indireta, como na frase, ao se referir à ideia de Jessica deixar Joice com a mãe, pois está preocupada com ela, ao que sua mãe diz - Criança fica onde a gente deixa. A mesma apatia e comportamento passivo-agressivo pode ser observado na tia de Jessica, que fica contrariada ao ter que cuidar de Joice para Jessica poder fazer o estágio da faculdade, e diz, contrariada: - Vou ter que vir aqui todo sábado agora? Joice, assim como Jessica, parecem ser um estorvo para quem cuida delas, ou seja, o prazer da convivência e cuidados com uma criança não estão presentes na família de Jéssica


Bárbara – teve uma mãe amorosa e lúdica, que foi substituída por uma cuidadora que também a coloca no berço, sozinha, quando chora. Sua mãe desaparece, possivelmente após ter morrido por suicídio. Bárbara abandona o filho por não se sentir capaz de cuidar dele. Sequestra o próprio filho cuja guarda pertence ao pai, tenta recuperar o direito de ver o filho, mas novamente tenta sequestrá-lo, impedida por Jéssica.


As duas representam diferentes faces das consequências do abandono.


Relação transferencial


A relação transferencial está contaminada pela identificação com o complexo parental negativo.

O complexo matriarcal negativo se origina nas feridas oriundas do abandono, levando à quadros depressivos e ansiosos.


O complexo patriarcal negativo se origina no excesso ou ausência de limites, de proteção e amparo, que podem levar ao excesso ou à falta de limites, à construção de uma persona extremamente rígida, como no caso de Jessica, ou a uma fixação no dinamismo matriarcal, como no caso de Bárbara, que não consegue se adequar aos limites saudáveis das normas sociais


Persona


Jéssica – Identificada com a persona social, ao se descrever, afirma que não há nada além da persona social.


Bárbara – Identificada com a persona do diagnóstico de Transtorno da Personalidade Borderline. Se descreve como toda errada, que fez muita besteira, que aprontou muito na vida, mas que prefere ser como é do que ser como Jéssica. Essa afirmação é agressiva em relação à Jéssica. Ou seja, prefere ser um turbilhão de emoções do que não sentir nada como Jessica. O estado semelhante ao da mania, ou euforia, sugerem uma fuga do estado depressivo, um comportamento reativo ao sentimento de abandono.


A identificação, e mutua escolha das duas, se dá via depressão, subliminar em Jessica, combatida por Bárbara através da extroversão e impulsividade desenfreadas.


Espelhamento via imitação


Jéssica e Bárbara começam a construir um vínculo mais forte através da imitação, jogando pedrinhas na água. Bárbara não aceita a relação terapêutica protocolar, patriarcal, e pede intimidade. Bárbara diz para Jessica que sua mãe se livrou dela, ao mandá-la estudar fora de casa logo cedo. Jéssica olha surpresa para ela. Esse insight causado pela afirmação de Bárbara permite que Jéssica entre em contato com seu sentimento de abando, vivido apenas através de seus pesadelos.


Aspectos positivos da relação terapêutica – resgate de aspectos criativos matriarcais e patriarcais.


Jessica tenta ajudar Bárbara a estruturar a vida fora da clínica, como procurar um apartamento, a fazer compras e arrumar um emprego.


Bárbara traz aspectos lúdicos para a vida de Jessica, como cozinhar com prazer, demonstrar afeto pelo filho, ir ao parque se divertir, e dançar.


Há ainda uma identificação entre as duas pelo carinho que ambas sentem pelas crianças. Ao observar as demonstrações de afeto de Bárbara por Caio, Jéssica fica mais carinhosa com Joice, a prestar mais atenção à solidão de Joice, leva-la para brincar e observar que Joice não brinca nem interage com as outras crianças, ao mesmo tempo em que evita que Bárbara não devolva o filho para o ex-marido, e Bárbara não interfere quando Jéssica pega Caio no colo dizendo que iriam leva-lo para a casa do pai.


Resgate das feridas via empatia – cuidar e ser cuidado


A relação das duas as ajuda a encontrar um equilíbrio, pelo menos parcial, entre a predominância dos mecanismos matriarcal em Bárbara, e patriarcal, em Jéssica . Os cuidados predominantemente formais ou patriarcais, de Jéssica para com Joice, e afetivos, ou matriarcais, de Bárbara para com Caio, tendem a um equilíbrio.


Jéssica passa a se permitir demonstrar afeto por Joice. Bárbara permite que Jessica interfira em seu desejo de não devolver Caio para o pai.


Complexo Matriarcal Negativo


Terapia não é amizade – Jessica dá um presente para Bárbara como tentativa de estabelecer um vínculo terapêutico mais forte, no entanto, pacientes portadores do Transtorno da Personalidade Borderline tendem a detectar facilmente as trapaças no vínculo, exigindo que a entrega ao vinculo seja do tipo “tudo ou nada”.


Arquétipo Psicóide - Pacientes borderline estão constantemente no arquétipo psicóide, ou seja, entre a consciência e a inconsciência, por essa razão, apresentam uma facilidade instintiva para “ler” os outros, portanto o vínculo terapêutico é muito intenso e requer uma capacidade de confiar no terapeuta 100%.

Essa garota não tem condição de realizar esse trabalho (Bárbara)


Esse filme nos leva a vários questionamentos pertinentes ao trabalho psicoterapêutico:


Bárbara dá um feedback negativo sobre o A.T. de Jéssica, atacando-a de forma pessoal, se utilizando das informações obtidas sobre Jéssica, a título de terem mais intimidade, para atacá-la, dizendo que ela nem queria ser psicóloga. O ataque de Bárbara é desleal, uma verdadeira traição, tanto ao vinculo terapêutico, quanto às fantasias de amizade que passam pela cabeça de Jéssica.


O vínculo entre elas é tão confuso que em alguns momentos fica difícil discriminar quem é a terapeuta de quem.

Há que se ter a humildade para aceitar as críticas e identificar as falhas no curso no processo terapêutico, para que se possa retomar o curso, ou seja, identificar uma defesa contra a relação transferencial de uma falha do terapeuta, no entanto, observamos que a equipe da Faculdade age de maneira defensiva em relação à crítica de Bárbara, e tenta resolver o problema de maneira superficial.


No caso em questão, a equipe foi atacada por Bárbara, que ao questionar a atuação de Jessica, e de sua capacidade em se tornar uma futura profissional, prefere se ater às dificuldades de Bárbara em constituir vínculos terapêuticos sólidos, negligenciando o fato de que Bárbara apontava um fato, pois ao decidirem continuar com o A.T., Jessica diz para Bárbara que ela só havia dito aquilo que todos pensavam dela, inclusive ela mesma.


A equipe olha para o paciente, mas não para a terapeuta em questão, demonstrando nítida dificuldade de lidar terapeuticamente com as críticas ao tratamento. A equipe também falha ao não mostrar nenhuma empatia por Jéssica, que havia sido fortemente agredida por Bárbara, ao ser chamada de burra e incompetente.


As críticas ao procedimento da equipe de professores, terapeutas e supervisores responsáveis pelo atendimento de Bárbara e supervisão de Jessica são inúmeras:


A) A visita à clínica onde Bárbara está internada transcorre com uma informalidade que poderia ter sido um rapport necessário à introdução do trabalho, mas subentende uma leveza que beira a inconsequência, dado a seriedade do trabalho em questão;


B) Jessica busca informações sobre o Transtorno de Personalidade Borderline na Internet, denotando que a formação tinha falhas. Seu conhecimento intelectual sobre a profissão não foi acompanhado de informações pragmáticas sobre como proceder em determinadas situações;


C) Jéssica, ao dizer que tinha cometido um erro ao presentar Bárbara, é repreendida pela supervisora, repreendida e debochada pelos colegas, mas ninguém elabora com ela a tentativa de estabelecer um vínculo terapêutico com a paciente, ou seja, a equipe em questão julga, mas não orienta, não tenta entender que Jessica tenta fazer o melhor, porém sem recursos técnicos para isso. Ela é mais uma vez criticada ao invés de amparada e instrumentalizada;


D) A psicanalista de Bárbara desqualifica a queixa de Bárbara, ao dizer que ela, terapeuta, também tem que lidar com as próprias “merdas”. Isso é um indicio que a equipe como um todo pode ter dificuldades em estabelecer uma relação terapêutica saudável com a paciente;


E) A supervisora afirma que querer morrer é melhor do que não querer nada, abrindo a possibilidade do suicídio como uma solução melhor do que o embotamento afetivo de Jéssica. As questões pertinentes à ideação suicida são tratadas de maneira superficial e clichê, imperdoáveis aos profissionais da Psicologia;


F) A indicação de psicoterapia para Jéssica é tratada de forma displicente, ela não é acolhida, nem como aluna, nem como indivíduo. A responsabilidade da supervisão é delegada a uma suposta intervenção terapêutica sobre a qual a supervisora não tem nenhum controle sobre se isso iria de fato ocorrer. A psicoterapia é indicada como solução quase que mágica para a falta de preparo que a aluna recebeu pela equipe de supervisão. Ao saber do suicídio de Jessica, a supervisora lava as mãos, dizendo que tinha indicado terapia, mas Jéssica não fez a terapia, o que, a meu ver, caracteriza uma defesa psicopática para tentar se eximir da responsabilidade de seus atos;


G) As diferenças socioculturais entre terapeuta e paciente não foram abordadas em nenhum momento, não apenas como essas diferenças interfeririam na relação terapêutica, mas no desenvolvimento da personalidade de cada uma delas.

Segundo sonho


Jéssica sonha que estava enforcada, pendurada em uma árvore, no campo, vestida toda de preto e com um papel branco colado no peito.


Circunstâncias anteriores ao sonho - reunião da equipe de A.T. em que Bárbara diz que ela não tem condições de realizar esse trabalho, que deveriam ter escolhido alguém que fosse, pelo menos, mais inteligente, e que Jéssica não tem condições de ser psicóloga.


A acusação ressoa em Jéssica, que diz que Bárbara apenas disse o que todos pensam dela, inclusive ela própria.

Jessica deixa cair a primeira lágrima antes de dormir, e perde a hora pela primeira vez. Ao perder o horário de se levantar, percebemos que as defesas estruturantes de sua personalidade estão abaladas.


Jéssica possui defesas que são fundamentais para que possa funcionar socialmente, seu ego é frágil, e sua persona rígida permite que ela se mantenha funcional.


Tais defesas são características de traumas precoces, em que o arquétipo matriarcal não pode ser vivenciado em seu aspecto mais positivo, de cuidado, acolhimento e aceitação do bebe, tanto em seus bons quanto maus momentos. A quebra de defesas tão importantes podem levar ao surto psicótico ou até mesmo o suicídio, como observamos no filme.


Bárbara se defende da intimidade que tanto busca testando a capacidade de afeto do outro, manda embora e depois chama Jéssica a de volta, abandona filho e marido e quer que eles compreendam sua ausência, querendo retomar a convivência como se nada tivesse acontecido.


Rotina como fator estruturante


Jéssica se mantém funcional através de uma rotina rigidamente estruturada, enquanto Bárbara depende de aceitação incondicional para se manter estável.


Bárbara precisa da rigidez de Jessica, para se organizar, apesar de confrontar essa rigidez o tempo todo, enquanto Jéssica precisa da fluidez e das demonstrações exacerbadas de afeto de Bárbara, pois estas contrastam com sua experiencia familiar de embotamento afetivo.


Elas desenvolvem um relacionamento simbiótico, porém, apesar da aparência de fragilidade de Bárbara ser mais evidente, Jessica é muito mais frágil, além de incapaz de pedir ajuda.


Chico Buarque, em sua música Cotidiano 1, descreve o desespero de uma vida em que tudo se repete, como nessas estrofes - todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã...numa rotina sem expectativas, depressiva, como o de Jéssica.

Jéssica diz – eu não tenho esse negócio de gostar não, eu faço o que tem que ser feito. Ou seja, não há espaço para a espontaneidade e leveza característicos do dinamismo matriarcal, apenas o dever a ser cumprido, característico do dinamismo patriarcal. O princípio do prazer do dinamismo matriarcal está ausente na vida de Jessica, enquanto rege a vida de Bárbara, que vive seguindo seus impulsos, sem pensar em deveres e nas consequências de suas ações, de maneira infantil.


Já Arnaldo Antunes descreve a depressão em sua música Socorro 2, da qual realço apenas algumas estrofes – socorro não estou sentindo nada, nem medo, nem paixão, nem vontade chorar, ou sorrir...


Enquanto Jéssica não se dá ao direito de gostar ou não, Bárbara alterna entre a busca desenfreada pelo prazer e a depressão.


Bárbara precisa de Jéssica, precisa de alguém que a contenha e que coloque limites em sua impulsividade, porém não aguenta as expectativas dos outros sobre ela, personificada na expectativa de Jéssica que ela encontre um trabalho “à sua altura”. Bárbara, apesar de muito inteligente, não conseguiu terminar a faculdade, nem explorar todo seu potencial e inteligência, pois tem dificuldade de seguir as normas.


Jéssica precisa de Bárbara para lhe trazer o colorido das emoções em sua vida, para ensiná-la a expressão dos afetos. Enquanto Bárbara não suporta o confronto entre sua realidade e as expectativas sobre ela, definindo-se como alguém cujo potencial não se realizou, Jéssica sofre com a falta de expectativas sobre ela. Espera-se que Jéssica não se mova, a não ser que seja mandada, afinal, segundo sua mãe, - criança fica onde a gente deixa, ressaltando que a palavra “deixa”, nesse contexto, implica não apenas um consentimento, mas sim um abandono. Esses comandos e expectativas estão internalizados, são complementares e espelham a sombra de uma em relação à outra.


Quero morrer, não me matar (Bárbara)


Há uma cena em que Bárbara diz querer morrer, ao que Jessica entende que ela quer se matar, ao que Bárbara esclarece, eu quero morrer, não me matar, e as duas discutem brevemente entre a diferença entre suicídio e vontade de morrer.


Segundo Hillman, o desejo pela morte se confunde com o desejo pela alma, com o desejo de estar em contato com a plenitude do self. O desejo pela morte também pode estar relacionado ao desejo de vivenciar uma participation mystique, um estado de simbiose ou comunhão com o outro, característicos da fase urobórica e dos primórdios da relação mãe-bebe.


Tanto Bárbara quanto Jéssica, desejam se conectar com a essência do seu próprio ser, porém os traumas e defesas patológicas impedem a experiencia numinosa do encontro com a própria essência do ser.

Cada uma, à sua maneira, se comporta de maneira estereotipada, com personas opostas e complementares.

Todo excesso nos remete à falta


O mundo extrovertido da casa noturna, da mudança de persona de Jéssica usando a roupa de Bárbara, se maquiando e penteando de maneira exuberante, alimenta a intimidade entre as duas mulheres, satisfazendo a necessidade de intimidade de Bárbara, no entanto, ao experimentar esse momento de espontaneidade com Bárbara, dançando, se divertindo, cria um contraponto, exacerbando ando a falta de intimidade que Jessica sentiu durante toda sua vida, ou mesmo fazendo-a vivenciar uma falsa persona, que não condiz com sua realidade interna, afinal, ela vai literalmente vestida de Bárbara.


Ao tentar reviver, sozinha, a experiencia anterior vivida com Bárbara, Jéssica não consegue se divertir da mesma maneira, pois não basta vestir-se de Bárbara, ela não pode usufruir da companhia exuberante de Bárbara que a faz se sentir parte do lugar e da experiencia que o lugar proporciona. Ela atrai a atenção de homens que a assediam, mas Jessica está em busca intimidade afetiva, característica de um estágio matriarcal primitivo, de acolhimento e cuidado, não um relacionamento erótico, que a fere.


GRITO – Manifestação primal de sofrimento


O choro e o grito são a forma de comunicação mais primitiva, as primeiras formas de comunicação do bebe. É através do relacionamento inicial com a mãe ou com a pessoa que cuida dele que o bebe aprende, através dos cuidados adequados recebidos, a identificar suas necessidades físicas e emocionais, aprendendo tanto a identificar, quanto regular suas emoções, nomeando-as adequadamente. Esse aprendizado só se dá quando há um cuidado adequado, de acolhimento, em que o bebe se sinta amado e seguro.


Quando Bárbara e Jéssica sentem, sentem de maneira instintiva, com emoção, não sentimento. Jessica tenta ajudar Bárbara a regular suas emoções, mas não há ninguém para ajudá-la a fazer o mesmo, muito menos para acolhe-la. A emoção é anterior ao sentimento, mais instintiva, já os sentimentos, são mais elaborados pela consciência.


Bárbara lhe mostra o mundo das emoções, mas nenhuma das duas sabe como lidar com elas.


- Mãe, olha pra mim (Jéssica)


Sonho – bebe chorando no berço, quando a mãe se aproxima, tem a face do arquétipo matriarcal negativo, a bruxa, em seu aspecto mais terrível.


Circunstâncias – fim do atendimento em A.T.


A rigidez de Jéssica não permite que ela mantenha contato com Bárbara, mesmo o atendimento em A.T. tendo se encerrado de maneira formal. Ao mesmo tempo em que encerra o atendimento com Bárbara, Jessica abandona a faculdade.


Choro simbólico


Ao bater no teto, liberando a água represada da goteira, Jessica libera o choro represado nela, porém o sentimento de vazio que estava represado nesse choro se extravasa e invade o ego, e diz, em tom de absoluto desespero e desamparo:

- Você é um nada para as pessoas.

- Porque você não chora, menina burra.


Sonho final


Jéssica está imersa na água, nua, a boneca que sua mãe segurava nas mãos enquanto ela estava no berço, e que era deixada no berço junto com ela, como uma substituta da mãe, flutua com ela.


Simbólicamente falando, a reconstrução do vínculo primordial não é possível, pois está contaminado pelo complexo matriarcal negativo. Jessica regride ao estado pré egoico, anterior ou imediatamente posterior ao nascimento, em que a relação simbiótica com a mãe não evolui para uma relação eu-outro, ela ficou objetificada, como sua mãe afirma – criança fica onde a gente põe pra ficar.

Notas de rodapé


Referências Bibliográficas

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