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O Homem Invisível – Uma metáfora sobre a invisibilidade do abuso

Atualizado: 12 de mai. de 2023


O filme está disponível na Netflix. Atenção, contém spoilers!

O Homem Invisível – Uma metáfora sobre a invisibilidade do abuso

O Homem Invisível é um filme de 2020, inspirado no romance de H. G. Welles, com roteiro e direção de Leigh Whannell, conta a estória de Cecilia, interpretada por Elisabeth Moss, casada com um rico e brilhante cientista, especializado em óptica.


Cecilia "Cee" Kass planeja sua fuga da mansão isolada em que vive com seu namorado abusivo Adrian Griffin, e o faz drogando-o com soníferos e correndo para a mata próxima para encontrar sua irmã Emily. Adrian acorda antes do planejado e chega a alcançar Cecilia, mas ela ainda foge. Durante a fuga, Cecília deixa cair a embalagem com os calmantes, cuja receita estava em seu nome. Duas semanas depois, uma ainda traumatizada Cecilia, que se esconde na casa de seu amigo de infância e policial, James Lanier, recebe do irmão de Adrian, o advogado Tom Griffin, a informação de que Adrian havia se suicidado ao cortar or pulsos, e uma embalagem de remédio está sobre a mesa, próximo ao testamento. Tom lê a última mensagem de Adrian para ela, dizendo que “apesar do relacionamento deles estar longe de ser perfeito, ele esperava que ela falasse com ele, ao invés de fugir”, em seguida, diz que gostaria que ela recebesse US$5 milhões, em parcelas mensais de US$100.000, com a condição que durante o recebimento da herança, Cecilia não fosse considerada mentalmente incapaz, caso contrário o pagamento seria interrompido.


Cecilia sabe que Adrian exerce um enorme poder sobre Tom, e desconfia que ele tenha participado na simulação da morte de Adrian. A partir disso, vários acontecimentos estranhos se sucedem, deixando Cecilia cada vez mais convencida de que Adrian ainda está vivo, e que teria encontrado uma forma de ficar invisível, para assim, persegui-la impunimente, de acordo com suas ameaças.


Durante o filme, Adrian e Tom, usam a roupa que cria uma ilusão ótica que os deixa invisíveis, deixando Cecilia ainda mais confusa, porque enquanto ela achava que estava sendo perseguida pelo invisível Adrian, na realidade os dois a estavam assombrando ao mesmo tempo, escondidos dentro da casa de James, provocando vários acidentes que fazem com que ela passe por louca perante James e Sydney, e por assassina, na cena da morte de Emily no restaurante.

A romantização do agressor costuma ocorrer na vida real, pois homens comuns, praticantes de violência doméstica costumam ter seu comportamento justificado socialmente. Entendo que a romantização da figura do agressor seja uma alusão, ainda que inconsciente, do papel especial de protagonista que costuma ser dado aos agressores, enquanto as vítimas de violência doméstica costumam ser desqualificadas, consideradas seres menos importantes e merecedoras dos maus tratos, que as próprias teriam provocado pelo sentimento de ingratidão de terem sido escolhidas como objeto de interesse de um homem, pois os homens continuam tendo um papel importante na valorização da mulher, que seria menos valorizável caso nenhum homem se interessasse por ela. Portanto, a romantização da figura do abusador é uma das metáforas utilizadas no filme, além da metáfora da invisibilidade, e consequente impunidade pela justiça, já que um crime sem flagrante, testemunhas ou vítimas confiáveis, não existe.


Adrian assombra Cecilia e manipula os fatos para fazer com que Emily, James e Sydney deixem de confiar nela, ou seja, afastando as pessoas que a ajudaram a fugir, e a iniciar uma nova vida sem ele. Esse comportamento, de isolar a vítima de abuso e afastá-la de sua rede de apoio é um comportamento característico das relações abusivas, pois a vítima acaba sozinha, desacreditada, frequentemente isolada e proibida de trabalhar, afinal, independência financeira é fundamental para que se tenha liberdade de escolha.


Cecilia se abriga na casa de James, talvez na ilusão de que o fato dele ser policial a ajudaria a se sentir mais protegida, no entanto, apesar disso, James não consegue ver as evidências de que sua própria casa estava sendo invadida, e que ele e sua filha também estavam correndo perigo. O artificio de fazer Cecilia parecer louca funciona mesmo com o policial, pois parece mais fácil declarar alguém como incapaz do que apurar os fatos, por mais estranhos que estes sejam.

Ao fugir, Cecilia enumera as situações sofridas por ela, todas elas comum às vítimas de abuso:

Ele diz que nunca vou poder deixá-lo;

Ele controla como eu me visto;

Ele controla quando eu posso sair de casa;

Ele tenta controlar meus pensamentos, e quando ele imagina que eu penso algo que ele não goste, ainda assim eu era punida;

Ele diz que, aonde quer que eu vá, ele iria me encontrar, saberia onde estou, mesmo que eu não o visse.


Complementando a lista de situações abusivas descritas pelo personagem, observamos que ela estava constantemente com medo, sua percepção da realidade era questionada, sua vontade de não engravidar não era respeitada, ou seja, ela era tratada como se fosse um acessório de Adrian, um objeto que existia para satisfazer suas vontades, amenizar sua solidão e manter a ilusão de que ele era amado.

Ao sabotar a cartela de anticoncepcionais, Adrian quer obrigar que Cecilia tenha um filho com ele, pois terem um filho em comum criaria laços profundos, que de certa forma, os uniria para sempre, ou mesmo impediria uma futura separação, pois uma mãe com bebe pequeno ficaria ainda mais vulnerável.


As cenas do filme, em que o Homem Invisível move objetos, deixa marcas no sofá ou puxa os lençóis da cama enquanto ela dorme, tem por objetivo abalar a sanidade mental de Cecilia, fazendo-a duvidar de sua percepção dos fatos. Adrian se beneficia de sua roupa de invisibilidade para usar o computador dela, mandando um falso e-mail em seu nome, criando intriga entre sua irmã e ela, numa clara vingança contra a ajuda que a irmã lhe deu durante a fuga. Além disso, como ele tem livre acesso a tudo o que há na casa, esconde o material do portfólio dela, fazendo-a parecer inadequada na entrevista de emprego, que a faria recuperar seu status de mulher e profissional independente, como quando ela era quando o conheceu.


A cena da entrevista de emprego é um divisor de águas na estória, pois Cecilia, além de estar com o portfólio vazio, desmaia e é levada para o hospital. Lá ela fica sabendo que tinha consumido uma alta dose de calmantes, que ela não sabia que havia tomado. Ela desliga o telefone antes de ouvir que estava gravida, e que sua cartela de anticoncepcionais havia sido adulterada. Ao encontrar o vidro de calmante com seu nome impresso, ela percebe que há de fato, alguém na casa, e resolve ir até a casa onde ela e Adrian moravam, onde encontra a roupa especial que torna as pessoas invisíveis, e a esconde em um armário secreto, o mesmo em que guardava sua mala de fuga.


Como ele é invisível, ou seja, como todo abusador, não pode ser visto, ou como em muitos casos, as pessoas ao redor do indivíduo em relação abusiva não quer tomar conhecimento do abuso de alguém próximo, ele pode fazer o que quiser. Nem sua irmã, ou melhor amigo, acreditam nela, o que a deixa cada vez mais desesperada, pois sabe que eles acham que ela está ficando louca, paranoica.


Fora da ficção, o artifício de pegar o computador ou celular escondido não é necessário, pois a vítima de abuso é obrigada a fornecer suas senhas de e-mail, redes sociais (quando é permitido que as tenha), e contas bancárias. As mensagens de texto e telefonemas também costumam ser vigiados e controlados. Vários desses comportamentos são classificados como ciúmes e prova de afeto, tornando a percepção do abuso ainda mais difícil, pois nossa sociedade patriarcal tóxica educou homens e mulheres de maneira diferente, em que os homens têm que ser firmes e impor respeito dentro de casa, e as mulheres passivas e submissas, e que alguns sinais de abuso seriam provas de amor.

Embora a independência financeira e altos níveis de educação sejam a realidade de muitas mulheres, ainda é comum que essas mulheres com profissões mais rentáveis ou respeitáveis que seus companheiros evitem humilhá-los, passando o próprio cartão de crédito por baixo da mesa do restaurante para que o homem posso parecer estar pagando a conta, isso quando esse mesmo homem não usa o dinheiro da companheira para pagar prostituas e coisas afim.

A maior dificuldade de quem está numa relação abusiva é ser acreditado, pois geralmente o abusador costuma ter um comportamento social mais aceitável, uma persona mais adequada, em que a vítima passa a ser vista como alguém desequilibrada que deveria estar feliz por ter alguém que cuide dela, enquanto na intimidade, esse agressor mostra a verdadeira face, algo próximo do médico e o monstro. Em outros casos, o agressor é tão violento que todos tem medo de afrontá-lo ou denunciá-lo, pois como o filme tão bem nos mostra, qualquer um que se colocar entre o agressor e a vítima de abuso passa a ser considerado como inimigo, e a correr risco, inclusive de vida, como nos mostram as manchetes dos noticiários.


O agressor comete ou provoca crimes que colocam a vítima de abuso em situação suspeita, como na agressão à Sydney, filha de seu amigo policial, que para proteger a filha, pede que Cecilia deixe sua casa, exatamente o que o agressor queria que acontecesse. Ele ainda mata sua irmã em público, de maneira que ela seja presa, pois mais ninguém sabia que ele estava lá, escondido em seu traje de invisibilidade. Na vida real, o traje não é necessário, pois o agressor pode facilmente manipular remédios, equipamentos e esconder as provas do abuso e das agressões, causando ou simulando acidentes, ou simulando o suicídio da vítima.


É preciso salientar que o homem autor de violência doméstica não costuma ser um criminoso típico, com extensa ficha criminal, sendo agressivo apenas em ambiente doméstico, o que enfatiza a visão metafórica utilizada pelo filme, ou seja, o agressor é como se fosse invisível para a sociedade. Pelas causas da violência doméstica serem justificadas pela educação machista característica de nossa sociedade, muitas vezes aliada ao abuso de drogas e outras substâncias, os grupos de apoio costumam levar à reflexão e diminuição dos índices de violência doméstica, podendo inibir suas reincidência e atuar de forma preventiva.


A vítima de abuso, no entanto, vai se sentindo cada vez mais incapaz de sair da situação, desacreditada por todos, e como geralmente não tem essa persona cheia de subterfúgios, sua sinceridade é facilmente manipulada e deturpada pelo agressor.

Vítimas de abuso costumam sofrer de stress pós-traumático e demorar muito a se recuperar. O filme mostra a vingança de Cecilia, que usa os mesmos artifícios do agressor, o matando, simulando o suicídio dele, assim como ele simulou que ela havia assassinado sua irmã. No entanto, na vida real, as vítimas de abuso não costumam assumir o comportamento do agressor e agir por vingança, na maioria dos casos, é a vítima que precisa ficar invisível, desaparecer, mudar de nome, cidade, para fugir do agressor que costuma perseguir a vítima por muito tempo.

Felizmente, existe atualmente uma rede de apoio na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania - SMDHC- (o endereço eletrônico abaixo tem o link para vários serviços de amparo e proteção à mulher vítima de violência) que atende e recebe as vítimas de abuso e seus filhos, inúmeras delegacias da mulher, que podem não funcionar ainda dentro de sua melhor capacitação, mas indicam que uma mudança está sendo forjada.


Os grupos de apoio e educação aos homens agressores começam a surgir, denunciando que vários agressores nem tinham consciência de seus atos. Relembrando que nem todo agressor é um gênio inventor e agressor premeditado. O próprio Adrian é um homem frágil, que treme na presença de Cecilia, sentindo-se vulnerável diante dela, demonstrando que ela tem poder sobre ele. Na verdade, toda vítima de agressão exerce um tipo de poder sobre seu agressor que faz com que ele acredite que só poderia viver se ela estivesse do seu lado, ou que sem seu amor ele não pode sobreviver. Geralmente essa fantasia de que sem a presença daquela determinada mulher a vida não tem sentido, ou que ser deixado por ela é um ato ofensivo, se origina, além dos vieses da educação machista, em situações traumáticas de abandono, complexo de inferioridade, baixa autoestima, em que a presença da parceira implica em autovalorização do indivíduo.


Em nossa sociedade, formar um par romântico (nem sempre romântico de verdade) é uma forma de status e declaração de sucesso social, no caso das mulheres, é comum ouvirmos a crítica de outras mulheres – de que adianta tanto sucesso profissional, está sozinha, sem marido..., ou em relação ao homem, por outros homens – ele é frouxo, a mulher faz o que quer.... essas críticas comuns em relação ao comportamento de homens e mulheres continua sendo manifestada, seja de maneira velada, seja de maneira explícita, e leva a que os indivíduos que estejam em uma relação insatisfatória assim permaneçam, afinal, como diz aquela canção do Chico Buarque, imortalizada na voz de Gal Costa – meu amigo, se ajeite comigo, e de graças à Deus! Ou seja, a cultura popular ainda considera que é melhor estar mal acompanhado do que só.

A experiencia mostra que essa máxima é equivocada.




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