CORINGA - A análise de uma sociedade doente

Atualizado: Mai 13


Toda analise de filme é parcial e incompleta, trazendo uma perspectiva parcial. Coringa é um filme que desencadeou em varias pessoas a necessidade de escrever sobre ele, pois é um filme que atinge a todos nós, ao tratar da violência, da saúde mental, da exclusão social, entre outras situações que nos atingem diariamente. Coringa merece muitas análises, embora esta análise que apresente aqui seja longa, um blog não comporta todos os detalhes que o filme demanda que sejam analisados.

Assistam ao filme e façam uma cara feliz, se puderem...

O filme Coringa não tem graça, o palhaço não tem graça, os comediantes não têm graça, todas as brincadeiras mostradas no filme não têm graça.

O senso de humor do filme reflete uma sociopatia que muitos ainda acreditam ser o senso de humor correto. O filme é também um tapa na cara dos humoristas que não sabem fazer humor sem agredir.

O cenário é feio, sujo, abandonado, como se representasse o mundo interior de uma pessoa traumatizada. Gotham City está cheia de lixo, invadida por ratazanas. Seria a cidade responsável pela agressividade inerente a seus moradores, ou seus moradores seriam infectados pelo ambiente insalubre em que vivem?

Coringa é trágico, tenso. Angustiante do começo ao fim. O expectador não tem dúvidas que algo extremamente grave vai acontecer a qualquer momento, e os momentos são muitos, as tragédias são muitas.

Alguns expectadores no cinema ainda tentam levar o filme na brincadeira, rindo fora de hora, mas seus risos solitários se unem ao riso desesperado e desesperador do Coringa. Os risos da plateia se calam.

Um grupo de rapazes está sentado logo na fileira de trás da minha, o comportamento deles me chama a atenção quando chegam ao cinema. Formam um grupo de fortões, bem vestidos e seguros de si, e com a mesma arrogância dos três rapazes mortos no metrô.

A ansiedade deles é palpável. Ao final do filme eles começam a falar muito alto, tentando comparar o Coringa com os filmes de super-heróis valentões, tentando desqualificar a intensidade do que viram. As moças que estavam com eles estavam muito desconfortáveis, o comportamento deles indicava claramente que eles se identificaram com o bulliers. Mas em Coringa os bulliers não tem um final feliz. A ordem vigente foi destroçada. Os rapazes, antes tão seguros de si, saíram do cinema desorientados.

Eu confesso que paralisei, não conseguia me levantar e ir embora para seguir com minha vida.

Coringa catalisou em minha memória a história de de muitos pacientes que já atendi, nestes quase 37 anos de prática clínica, cerca de 40 se contarmos os estágios clínicos em hospitais psiquiátricos, durante formação em Psicologia.

Impossível não lembrar do desenho animado Divertidamente, e do filme Fragmentado.

Tanto em Divertidamente como em Coringa, não havia espaço para a tristeza. Onde não há espaço legítimo para a tristeza, quando o sentimento legítimo de se sentir triste é reprimido, todas as outras emoções são afetadas.

As gargalhadas fora de contexto de Coringa mostram uma alegria e felicidade tão falsas, tão artificiais, quanto o sorriso e passividade que sua mãe exige que ele tenha. Ele tem uma autoimagem construída pelo estereotipo criado pela sua mãe, que não tolera tristezas, desavenças e conflitos. Ele cuida da mãe com carinho e devoção, como se ela fosse inválida, ele a alimenta, banha, coloca na cama, como se ela fosse seu frágil bebe, enquanto ele exibe uma figura extremamente magra, desnutrida e sofrida. Ele mostra por ela uma ternura e um cuidado por vezes desconcertantes.

Ele tenta se inserir num mundo que não o aceita, ele é um excluído, ele não se encaixa. Tentar parecer normal demanda um esforço sobre-humano. Tentar parecer normal, feliz, engraçado, parece ser uma persona pesada demais para se carregar. A profissão de palhaço condiz com seu estado mental, o palhaço triste é uma figura arquetípica, presente em tantos filmes e programas de TV. O palhaço tenta levar aos outros a alegria que lhe falta. Ele aspira ser um comediante de stand up comedy. Em meio a suas anotações de pensamentos depressivos ele anota o que julga serem piadas engraçadas. Sua aspiração em se tornar um comediante denota uma tentativa de aparecer além da mascara, afinal, ele quer ser visto, reconhecido.

Imediatamente me lembrei de um paciente que usava ternos o tempo todo, apesar de não trabalhar, pois na sua fantasia as pessoas iriam achar que ele era um profissional respeitável e não perceberiam sua doença mental. Este paciente queria ser visto como alguém respeitável, pois as pessoas o evitavam, e ele buscava se relacionar através de uma persona falsamente construída, a fim de aplacar seu isolamento. A doença mental muitas vezes cria falsas personas na tentativa de se inserir na sociedade, porém principalmente na fantasia de criar laços afetivos.

Ver e ser visto, ter sua existência reconhecida é um desejo natural, mas a sociedade sempre tentou esconder a doença mental atrás dos muros de manicômios. .

Arthur também quer ser visto, mas ele não é visto nem pela profissional de saúde que o recebe semanalmente. As consultas são desesperadoras. Não há diálogo, não há interação. Há um faz-de-conta de atendimento. Ele diz claramente que a ajuda recebida não esta funcionando, que os remédios não estão sendo suficientemente eficazes, mas sua auto-percepção sobre sua própria saude mental não é considerada. Ele está tão abandonado quanto a assistente social. Ambos desamparados por uma estrutura de saúde que não se importa com eles.

Será que só no filme as coisas acontecem assim? É só lermos as notícias de nosso país e de varios países do mundo para vermos que não. A saúde, os cuidados com a saúde de física e mental de uma população são um indício de inclusão social, sua falta portanto indica uma intenção deliberada de exclusão. Não basta ser parte da elite econômica, é preciso ser elite no quesito saúde e educação, caso contrário, as elites de cada país correm o risco, num delírio paranóico ou não, de perder sua posição de destaque na sociedade.

A cena dos assassinatos no Metrô é chocante muito antes do crime de fato ocorrer.

Os rapazes “de bem” do filme são horríveis! Talvez por isso os rapazes sentados na fila atrás da minha no cinema ficaram tão tensos com o filme, afinal eles estavam tratando as moças que estavam com eles com um nível de desrespeito muito próximo aos sujeitos na cena do Metrô , que achavam que a moça tinha obrigação de ser gentil com um deles, afinal, eles eram cidadãos de bem e mereciam uma consideração especial. O Coringa assiste aquilo e ri, gargalha sem parar. Não sei se o riso dele foi inadequado nessa hora, ou uma tentativa inconsciente desesperada de parar a situação de abuso, próxima a tantas que ele sofria constantemente em sua vida, afinal, o que os rapazes estavam fazendo era abominável. Quantas mulheres já não se viram na mesma situação, em que o homem acha naquela que ela deveria se sentir lisonjeada por estar chamando a atenção de um cidadão tão especial (pelo menos da concepção dele...)!!! Afinal, as elites sempre se utilizaram de sua condição para seduzir, subjugar e desprezar aqueles que não pertenciam à sua classe social, e receber um não parece ser uma ofensa inaceitável para eles.

Este filme faz uma critica muito pertinente à masculinidade tóxica e ao humor que usa o desrespeito para ser engraçado apenas para uma minoria. Os homens são retratados em seu pior, debochados, desrespeitosos, misóginos, preconceituosos, arrogantes.

Arthur parece ter uma sensibilidade capaz de perceber que isto está errado, mas sente-se impotente para contestar um comportamento socialmente aceito e valorizado. No Metrô ele se identifica com a moça que esta sofrendo os abusos, seu riso parece o riso de nervoso, que tantas pessoas têm, mas extremamente exagerado. Quando os homens o agridem, eles o agridem porque sabem que ele viu o ridículo papel que eles estavam fazendo, e tentam calar sua crítica em forma de riso desesperado. Eles também o agridem porque ele cruzou a barreira das classes sociais, interferindo, com seu riso, numa ação que eles consideravam legitima.

Porém Arthur tinha uma arma. Um colega de trabalho, após vê-lo ser espancado e punido pelo patrão, lhe dá uma arma, dizendo que desta forma ele poderia se proteger. Alguns políticos compartilham da mesma crença, e da mesma ingenuidade. Portar uma arma não é tarefa fácil. Decidir a hora certa de usá-la, ou mesmo se deveria usá-la de fato depende da consciência da própria agressividade. Não sei ao certo quantos de nós possuímos uma consciência adequada de nossa capacidade de agressão. Vemos tantas cenas de agressão verbal e física em situações tão banais, que certamente uma arma não seria um fator apaziguador de ânimos.

Arthur nunca soube lidar com sua própria agressividade, não aprendeu a lidar com seus próprios sentimentos de frustração, raiva, tristeza, apenas a reprimi-lós. Quando de posse de uma arma sua reação é instintiva, não tem tempo de pensar em certo e errado. Alguém que passou a vida sendo injustiçado, desprezado, ignorado, espancado, tratado de forma degradante, quando coloca agressividade para fora, e o resultado deste ato agressivo consegue finalmente paralisar o agressor, sente-se fortalecido, invencível. O estado depressivo cede espaço para o estado maníaco. O Coringa deixa de ser um ser indefeso e descobre ser capaz de se defender, mas também se identifica com os agressores, superando-os.

As pessoas privilegiadas tendem a receber um julgamento mais diferenciado.

Enquanto a agressividade dos rapazes do Metrô é exercida através da coação e constrangimento, da agressão que humilha e rouba a dignidade, além de ferir, esta ainda é a agressividade elitizada, que não chega às vias de fato e ainda pode dar margem a julgamentos condescendentes, afinal, a elite é julgada por seus semelhantes, e seus semelhantes não querem abrir precedentes de punição para uma situação em que poderiam se colocar a qualquer momento, não e mesmo?

Arthur não tem esta malícia e capacidade de controlar sua agressividade ao nível de agredir e conseguir não ser pego ou punido. Em realidade, ele representa a minoria, e a minoria costuma ser considerada culpada quando o agredido é de uma classe social superior, afinal, a elite tem sido intocável há centenas de anos, a história e os crimes de colarinho branco estão aí para exemplificar. Não há condições de medir força de igual pra igual, afinal, não há iguais. A justiça não trata os cidadãos de maneira igual, todos sabemos disso, por bem ou por mal. Arthur e os homens do Metrô são cidadãos de valores desiguais perante a sociedade, todos sabiam disso durante o tempo todo em que estiveram dentro daquele vagão de trem.

Quem não tem nada a perder fica muito poderoso, e ele próprio se surpreende em como não se sentiu mal pelos assassinatos, na verdade se sentiu aliviado, como quem se livra de uma dor de dentes. Arthur foge, se esconde num banheiro, busca um reduto de intimidade, e dança. Ele não lava o rosto, não tenta tirar a maquiagem de palhaço, ele não se comporta como um criminoso normal, ele não era normal. Então ele dança, uma dança suave, leve, soberba, como se tivesse atingido um momento numinoso.

O bem, como o mal, são formas de entrar em contato com o numinoso. Dar e tirar a vida de alguém é um momento sagrado. Quem já acompanhou o nascimento ou a morte de alguém sabe que o momento e muito forte, sagrado.

Assassinos dizem que nunca mais são os mesmos desde o primeiro assassinato cometido. Arthur não alcança a redenção pela empatia e compaixão, mas libera a psicose e a sombra arquetípica do mal, passando a buscar justiça para sua vida pelas próprias mãos. Ele parte de uma ação impulsiva no Metrô, para o assassinato frio de sua mãe adotiva no leito do hospital.

Vítima e agressor são polaridades complementares arquetípicas.

Ele sempre foi uma vitima da falta de empatia e compaixão, após os assassinatos no Metrô ele abandona o papel de filho sorridente da mamãe e passa a não ignorar ou perdoar mais isto nas pessoas a sua volta. Não perdoa o colega que vai lhe visitar, supostamente para lhe dar os pêsames, quando na verdade queria que ele omitisse o fato de que tinha dado a arma do crime para ele. Ele não perdoa o apresentador, que o ridicularizou em seu programa, exibindo seu fracasso como comediante. Dessa vez ele diz com clareza que este o convidou para o programa para debochar dele, denunciando seu desrespeito e a humilhação a que havia sido submetido. Pacientes delirantes tendem a fantasiar com figuras publicas, e Arthur fantasiava que o apresentador pudesse amá-lo como a um filho, ele busca no apresentador de TV a presença de um pai, e de fato, este apresentador exerce na rotina familiar de Arthur a presença virtual de um pai, ele e a mãe tem um ritual de assistirem juntos ao programa, durante o jantar, sentados na cama da mãe, quase como se fosse uma reunião familiar de fato. Tanto Arthur como sua mãe fantasiam um pai para ele, ambos famosos, distantes e idealizador, porém bem sucedidos e que poderiam lhes proporcionar uma vida melhor, a qual eles, sozinhos e doentes não eram capazes de ter.

Agora Arthur enxerga e denuncia as segundas intenções, na verdade as más intenções disfarçadas e dissimuladas de boas intenções. As intenções veladas, o egoísmo, a falta de empatia e compaixão sempre foram marcantes em sua vida, ele sempre se comportou como se não visse, afinal, ele era o menino feliz da mamãe.

Coringa se parece com Fragmentado quando Arthur assume seu novo nome. Ao ir ao programa de TV ele pede para ser anunciado como Coringa, o pai que ele idealizou na figura do apresentador lhe da um novo nome, como se ele tivesse de fato renascido através do crime e tivesse assumido uma personalidade paralela.

Como em Fragmentado ele poupa alguém, ele poupa o anão, pois o anão sofria o mesmo tipo de bullying que ele, os dois sofriam igualmente nas mãos de colegas “bem-intencionados”, cuja agressão se escondia no humor sem graça.

Outro fator que remete a Fragmentado é a dança. Coringa e Hedwig, a personalidade eternamente criança de Kevin, dançam. E a dança de ambos é terrivelmente assustadora, embora diferentes. A dança de Hedwig expõe a agressividade desta personalidade de Kevin, aparentemente inofensiva, porém parte integrante do conjunto de personalidades. A dança do Coringa traz uma leveza insustentável ao personagem, uma leveza dissociada, mostrando uma fragmentação da personalidade de Arthur, personagem tão traumatizado quanto Kevin.

Ambos os personagens, tanto Arthur quanto Kevin poupam os personagens com os quais se identificam, o anão e Casey, respectivamente, mostrando que mesmo o maior vilão pode ter um componente heróico e um ponto de empatia preservado dentro da psicopatia.

Tanto Arthur quanto Kevin tem mães abusadoras, elas são abusadoras de diferentes maneiras, mas são ao mesmo tempo doentes e incapazes de cuidar dos filhos de maneira adequada. O pai de Kevin morreu enquanto ia buscar tratamento para a mãe dele. A mãe de Arthur lhe deu uma fantasia de pai idealizado, enquanto na realidade permitiu que seus companheiros o maltratassem a ponto de sofrerem intervenção. Os dois ficaram sujeitos a maus tratos por toda a vida. A diferença é que a mãe de Arthur não parecia ser de todo ruim, afinal, parecia ser uma mulher frágil e debilitado. Ela ajudou Arthur a criar uma persona “feliz” e amável, assim ele não precisaria entrar em contato com o sofrimento que ela lhe causou, ou por não ter condições de cuidar nem dela mesma, ou por ter permitido que seus companheiros abusassem dele da maneira que o fizeram. A mãe de Arthur estava dissociada, e a maneira dela de evitar sofrimento era negá-lo, ensinando o mesmo para o filho.

O filme mistura cenas reais e delirantes, deixando o expectador confuso, tendo que parar para pensar o que de fato aconteceu. Quem já atendeu pacientes psiquiátricos sabe que este é um exercício intenso, já que nem todos delírios são de fato absurdos. O próprio delírio da mãe de Arthur, de que ele seria filho do milionário Wayne, é muito recorrente em mulheres internadas em hospitais psiquiátricos. A fantasia delirante de que o próprio filho tem um pai especial faz parte da fantasia de ser ela própria especial, e de que todo o sofrimento é injusto e será um dia redimido. Esta fantasia é arquetípica, comparável ao mito judaico cristão em que Jesus era filho do próprio Deus. Se Maria de Nazaré vivesse nos dias de hoje provavelmente o mito judaico cristão teria um final bem diferente, e a religião católica talvez não existisse.

Ao tentar descobrir sua verdadeira origem, ou na tentativa de encontrar um pai que o acolhesse e o amasse e que lhe ajudasse a cuidar da sua mãe, ele acaba por descobrir segredos de sua própria história.

A falta de empatia pelo sofrimento de Arthur durante todo o filme é angustiante. Em nenhum momento ele inspira a compaixão dos outros personagens, o que penso que ocorre de fato com os doentes mentais em muitas ocasiões, as pessoas não sabem como lidar, tem medo e se afastam. Compreensível, já que lidar constantemente, ou ter que conviver com doentes mentais graves é sem dúvida, desafiador.

O filme não tem um único momento de esperança. Talvez a abordagem mais humana seja a do funcionário do hospital que percebe o impacto das informações que estavam no prontuário da mãe de Arthur, e que também se referem a ele. O funcionário percebe o impacto da informações que acabou de fornecer, alias, inadequadamente, reconhece seu erro e sua limitação, sugerindo que ele procure ajuda profissional, mas o governo cortou a ajuda, ele não tem mais como procurar atendimento.

O pai que a mãe fantasia para ele chama toda a população de palhaços, desqualificando a todos que não fazem parte da mesma elite que ele alimenta. É com este discurso que este homem considerado tão especial defende os agressores de Arthur, declarando que como eles eram um dos "seus” eram especiais e não que a agressividade recebida foi gratuita, oriunda da inveja que as classes menos favorecidas tem dos mais privilegiados. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Este é o candidato mais acreditado para resolver os problemas da cidade de Gotham. Mais uma triste semelhança com a realidade.

Dividir para melhor governar tem sido uma eficaz estratégia de governo há séculos. Enquanto governantes disseminam o ódio entre classes, religiões e etc, eles tornam as massas mais manipuláveis. As classes sociais, religiões e associações criam um identidade grupal que pode transforma tudo numa questão de "nós e os outros”, facilmente transformada em "nós contra os outros”. É o que eu chamo de cortina de fumaça. Enquanto as pessoas brigam por privilégios fantasiosos, políticos e pessoas de bem de varias religiões e ideologias saqueiam os cofres públicos (e das entidades religiosas também), perpetuando e aprimorando as diferenças e injustiças sociais.

O encontro de Arthur com Bruce, nos jardins da mansão, por detrás das grades, é tenso e tocante. O pobre menino rico está solitário, trancafiado em sua mansão, mas vulnerável. A própria mansão dos milionários parece árida, escura, sem vida.

Arthur consegue facilmente se aproximar, estabelecer contato, e poderia ate mesmo tê-lo matado. Arthur parece ter se identificado com Bruce através da tristeza, tentando transformar o rosto triste do menino no mesmo sorriso forçado de palhaço que ele ostentou por toda a vida.

É nesta tentativa de encontrar um pai, fruto da fantasia delirante de sua mãe, que ele descobre que é adotado. Ele descobre que é adotado da maneira que muitas crianças costumavam e ainda costumam descobrir, por terceiros e de forma cruel. Além de descobrir que é adotado, descobre (será que ele não sabia?) que sua mãe tinha problemas mentais. Ao visitar o hospital, descobre através do prontuário dela que ela permitiu que ele recebesse maus tratos de seus parceiros, e que ele foi encontrado amarrado a um radiador, machucado, desnutrido, com vários sinais de violência, e que sua mãe foi considerada responsável por permitir que seus parceiros o maltratassem, isto é, que ela foi cumplice dos maus tratos, e que sua doença neurológica, que o faz ter crises de riso, pode ter sido causada pelas agressões sofridas na infância. A mãe idealizada morre, mas não morre apenas simbolicamente. A doença mental caracteriza-se pela inversão entre ação real e simbólica. Ambas se misturam e o símbolo fica literal, perdendo sua força numinosa. Todos sabemos que é preciso matar pai e mãe simbolicamente para que possamos amadurecer e fazer renascer o pai e a mãe internos dentro de nós, mas na psicose o caminho simbólico é equivocado. Engana-se que o inconsciente é apenas belo em sua numinosidade. O numinoso tambem pode ser extremamente avassalador, e destruir tudo a sua volta.

De certa forma, esta descoberta é redentora, ainda que psicótica, libertando-o da opressão que a mãe exercia sobre ele. Arthur parecia estar bem adaptado a sua persona de filho doce e sorridente, pelo menos até o momento em que ele a confronta sobre a identidade de seu pai. Trancada no banheiro, ela diz que só responderia suas perguntas sobre seu pai ser o milionário Wayne se ele controlasse sua raiva. Aqui vemos o esforço imenso que ele faz para se controlar, saindo de uma emoção genuína para um auto-controle angustiante, pelo menos para mim.

Ao descobrir que sua mãe é de fato uma mãe adotiva, e co-responsável por coisas terríveis que lhe aconteceram, o efeito é redentor, e ao mesmo tempo catastrófico. Toda a agressividade em relação a mãe que havia sido reprimida por todos estes anos, vem à tona.

Ele diz para a mãe, em seu leito de hospital, que ele nunca teve um único segundo sequer de felicidade na vida, e que mesmo assim, ela exigia que ele demonstrasse uma felicidade que nunca sentiu. Ao tentar ignorar a fala de Arthur e manter as coisas como estavam, ele a mata sufocada, talvez num símbolo do quanto ele se sentiu sufocado por toda sua vida. Ele também havia se exposto de forma semelhante com a assistente social, logo numa das primeiras cenas, e depois com a enfermeira do hospital.

O palhaço é invisível

Ele verbaliza que nunca foi visto nem ouvido, o palhaço era invisível. Muitos dos nossos pacientes tem muita dificuldade de ter um insight como este. Será que se Arthur tivesse tido um atendimento psicológico e psiquiátrico adequado ele teria se tornado o Coringa?

Alguém que nunca manifeste suas emoções de maneira condizente com seu estado interno, representa um personagem, uma persona, e no caso de Arthur o palhaço é muito mais do que um personagem, é um anseio de vida. Em sua fantasia, ele seria amado se tivesse sempre um sorriso no rosto, se estivesse sempre feliz. Infelizmente, não funciona desse jeito, pois a gente sorri e é feliz quando se sente amado, inverter o processo não garante o resultado.

Aliás, aproveito o filme apara abrir um parêntese sobre a demanda social do sorriso. Parece que há uma obrigação social de sermos simpáticos, especialmente em se tratando de mulheres ou de minorias.

Mulheres são constantemente convocadas a sorrirem, mesmo que não queiram. Essa é uma forma de abuso que muitas vezes passa desapercebida. Quantas vezes somos solicitados a fazermos uma “carinha feliz” por parentes e amigos, de maneira totalmente inapropriada? Há famílias que escondem toda a tristeza embaixo do tapete, são famílias perfeitas e sem problemas em que estão todos sempre bem, a família tem uma persona própria, em que todos os membros tem que respeitar a regra, como a ame de Arthur fazia com ele.

Certa vez tive que alertar meu próprio analista sobre isso, já que ele sempre demandava que eu sorrisse, de uma maneira misógina que nem ele sabia que tinha! Todos sabem que durante uma sessão de psicoterapia até rimos de algumas coisas, mas este não é exatamente o propósito de um encontro terapêutico, não é mesmo?

Existe um culto à fantasia da felicidade e bem-estar que é sufocante. Precisamos estar todos bem, o tempo todo, nem que seja para não deixarmos os outros desconfortáveis com nossa presença. Existe uma valorização da extroversão, do riso fácil, das pessoas divertidas, e uma fuga desesperada de situações de tristeza. Já assisti inclusive pessoas questionadas sobre o porque da “cara amarrada” de alguém que estava cuidando de um paciente terminal hospitalizado, com a morte prevista para as próximas horas...

Os programas de autoajuda e de terapias espiritualizadas, ou coisa que o valha, treinam pessoas a serem felizes, a olhar apenas o lado positivo das coisas e etc, mas eu me pergunto, para onde vai esta sombra que não foi integrada e elaborada na personalidade? Para onde vão os choros não chorados, as tristezas e abusos que não foram conscientizados? Sabemos que tristeza reprimida transforma-se em agressividade, sabemos que pessoas deprimidas, se não forem abertamente agressivas, são, no mínimo, passivo-agressivas.

É claro que Arthur mostra o exagero disso tudo, devido à sua condição de doente mental, e aos múltiplos traumas sofridos durante toda a sua vida. Aliás, será que Arthur teria todos estes problemas psicológicos se não tivesse sofrido todos estes traumas e ter sido educado em uma sociedade que deixa uma criança aos cuidados de uma mãe incapaz, sem alguma supervisão? Mas o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Arthur fica extremamente agressivo por causa de seus problemas psicológicos ou tem problemas psicológicos porque está inserido numa sociedade psicopata?

Nosso mundo, nossas redes sociais estão cheias de palhaços, encenando um sorriso, uma felicidade e leveza que não estão lá de fato. Várias amizades e relações familiares são abusivas, sadomasoquistas, e nossa cultura parece tender a valorizar isto erotizando filmes e personagens sedutores, legitimando um imaginário pré-existente de abuso e subjugação do outro, justificado pela supremacia do desejo daquele que foi socialmente mais avantajado.

Coringa denuncia isso. O diretor denuncia isso da maneira menos sutil que se poderia fazer. Não há concessão na crítica social feita pelo filme, tanto em relação às elites dominantes, tanto quanto em relação as classes dominadas. Todos são criticados democraticamente. O rico e o pobre, todos tem o mesmo comportamento agressivo, sádico, psicopático. A indiferença reina soberana numa sociedade onde todos desejam ser vistos, e apenas raros conseguem, e muitos daqueles que recebem esta visibilidade e reconhecimento, muitas vezes recebem este reconhecimento por valores equivocados e superficiais.

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